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domingo, 28 de maio de 2017

Churrasqueira D. Pedro (Ramada)

Há serviços que fazem uma casa! Este é o maior elogio que posso fazer à Churrasqueira D. Pedro, na Ramada. Entrar pela primeira vez num restaurante e sentirmos que somos tratados como se lá fossemos todas as semanas. Tudo de uma forma genuinamente honesta e fantástica! Saí do restaurante plenamente convencido que caso fosse mais perto da minha zona seria um cliente regular.
Mas não é só o serviço que aqui é bom, apesar de ser facilmente o ponto de maior destaque da casa. Gostei bastante da decoração do restaurante, que foge radicalmente à decoração de tasca/churrasqueira a que normalmente estamos habituados, e tem toda uma temática vínica, acompanhando com o que parece ser uma garrafeira de meter respeito. Mas estou para aqui a gabar todos os pontos que normalmente considero secundárias e ainda nem uma referência à cozinha fiz? 
A refeição iniciou-se com um excelente Couvert, composto por bom pão, umas azeitonas decentes e um óptimo Painho Alentejano.



Também foi colocado na mesa um excelente Queijo de Ovelha curado, intenso no seu sabor e que acompanhou bem o pão já servido.



A ementa é composta por pratos simples, sem grandes preparações, como seria de esperar de uma churrasqueira. A indicação de meias doses leva-nos a fazer crer que uma dose chegaria para 2 pessoas e estávamos correctos. Ainda assim, um dos comensais decidiu devorar uma dose de Secretos só para si. Apesar do bom aspecto (do qual não existe registo fotográfico), disse estarem um pouco salgados demais. Mas não me apetecia grelhados. Desde o dia anterior que o meu apetite andava à procura de um bife com molho, acabando a escolha por recair no Bife à Dionísio. Excelente bife, com uma carne tenra, saborosa e bem temperada e a repousar numa gulosa poça de um curioso molho escuro que se revelou algo viciante! Em cima, um ovo ligeiramente estrelado demais (para o meu gosto) mas com a gema a apresentar-se ainda líquida.



Acompanhou com um simpático Arroz de cenoura e umas decentes Batatas Fritas. E aqui entra mais uma vez o maravilhoso serviço que, vendo o pobre esfomeado que tinha acabado de ingerir uma dose inteira de secretos ainda a raspar os pratos das pessoas à sua volta, prontamente, pela voz do responsável do restaurante, fez chegar à mesa mais acompanhamentos para que nada nos faltasse. Pequenos pormenores que fazem toda a diferença.



As doses individuais são bem servidas mas o estômago pedia um aconchego final, que se traduziu num bom Bolo de Bolacha. Nada daqueles excessos de manteiga ou natas (blasfémia!), mas antes perfeitamente equilibrado e onde o ingrediente principal era realmente a bolacha.



Menos satisfatório mas ainda assim de bom nível, a Delícia de Morango. Uma espécie de panna cotta com uma cobertura de morangos liquidificados a concretizar um bom contraste.



Uma autêntica revelação esta Churrasqueira D. Pedro! Já tinha lido coisas positivas mas ainda assim conseguiu superar as expectativas.

Churrasqueira D. Pedro
Ramada, Portugal
Restaurante Churrasqueira D. Pedro Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 20 €
Data da Visita: 29 de Abril 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Akla (Marquês de Pombal)

Graças a um convite da Zomato, tive a oportunidade de ir conhecer o restaurante Akla, localizado no hotel InterContinental Lisbon. Já tinha ouvido falar deste espaço noutros blogs, e tinha ficado com o mesmo referenciado mas, como em muitos outros restaurantes, a oportunidade de o conhecer ainda não tinha surgido. E para os muitos que possam estar a ler este texto com a ideia de que os restaurantes de hotel são todos um tourist trap gigante, este é um daqueles capaz de vos fazer mudar de ideias. Sim, a verdade é que ainda existe muito esta ideia em Portugal, principalmente em Lisboa, mas está na altura de mudar esta mentalidade, pois cada vez são mais comuns os bons restaurantes que encontramos localizados em hóteis lisboetas.
Em meados de 2016, o InterContinental Lisbon chamou Eddy Melo, chef açoriano que passou grande parte da sua vida no Canadá, para liderar a cozinha do seu novo restaurante Akla (ou أَكْلة em árabe, traduzindo-se para "refeição" ou "comida"). Isto traduziu-se numa cozinha bastante internacional, com influências de todo o mundo, mas com algum foco em fazer chegar à mesa bons produtos portugueses (e não só), seja nas ostras da Ria Formosa, o atum de São Miguel ou no tomate do Ribatejo.
Uma das vantagens de jantar num hotel em Lisboa, é a forte probabilidade de o restaurante não estar cheio e conseguirmos ter um serviço mais atencioso e presente. No dia da visita, uma sala a meio gás, onde nós éramos os únicos portugueses, o serviço esteve realmente bastante presente (talvez até um pouco demais) mas sempre prestável, simpático e preocupado com o decorrer da refeição. O único aspecto que não gostei muito na sala foi a distância entre o assento circular (aparentemente fixo) onde estava sentado e a mesa, fazendo com que tivesse de me chegar muito à frente para conseguir comer. Claro que isto pode ser derivado da minha baixa estatura mas ainda assim parece-me um local mais confortável para beber algo e pôr a conversa em dia do que fazer uma refeição.
Bebidas essas que estiveram presentes na refeição em forma de cocktails. Por feliz acaso, esta visita decorreu durante a Lisbon Cocktail Week, e conseguimos provar dois dos cocktails preparados especialmente para o evento.

Mish Mash (Fever Tree Ginger Beer, Lima, Limão, Laranja, Manjericão, Xarope de Açúcar, Sumo de Maçã)
Le Bataclan (Jinzu Gin, Licor de Ervas, Colis de Frutos Vermelhos, Sumo de Limão, Xarope de Açúcar, Clara de Ovo, Champanhe)
A refeição iniciou-se com um Couvert excelente, composto por 4 óptimos pães (que me pareceram: Pão de Cebola, Pão Tigre, Focaccia de Azeitona e um Pão mais escuro que não consegui identificar do que era) e um excelente azeite Herdade do Esporão. Os pães foram realmente um início de refeição auspicioso, pela sua qualidade e diversidade, tornando-se de tal forma viciante que penso que seríamos capazes de fazer uma refeição inteira só disto. Como se não bastasse o quão bom eram, ainda nos substituíram o cesto com uma nova fornada ainda antes de chegarem as entradas.


O couvert neste dia incluía um amuse bouche bastante agradável, com uma Salada de Quinoa com Salmão Fumado. Bastante simples e equilibrado.


Nas entradas, e com muitas e apelativas opções por experimentar, optámos por seguir o nosso instinto pedindo um excelente Tártaro de Vazia, Ovos de Codorniz, Cebola Caramelizada e Maionese de Anchovas do Atlântico. Tudo ligava bastante bem, e a apresentação era irrepreensível, mas aquela maionese fazia toda a diferença no prato e elevava-o para um nível quase excêntrico!


A matéria prima do Akla é de facto fantástica, como se pôde comprovar no Ceviche de Atum de São Miguel com Molho Tigre, Abacate e Agulhas do Mar. Somos de facto o país com o melhor peixe do mundo e ao apanhar atum desta soberba qualidade aqui só me fez questionar o porquê de muitos restaurantes de sushi servirem atum de tão baixa qualidade. Excelente toda a preparação, ainda que o leche de tigre estivesse muito mais suave do que é habitual nas preparações peruanas, mas acaba por encaixar bem no atum. Excelente adição também do pimento, algo que também foge à preparação tradicional peruana mas que encaixa bem no palato português.


Sabores claramente portugueses foi o que encontrámos no Risotto de Grelos, Camarão Grelhado e Burrata DOP. Excelentes os grelos, a brilharem acima de tudo o resto, com um arroz bem cozido e os camarões saborosos a ajudarem o conjunto. O único elemento que parecia estar eclipsado era a burrata, que acabava por não se conseguir destacar o suficiente contra os sabores mais fortes dos grelos e do camarão.





Não podíamos visitar o Akla sem experimentar uma das suas carnes maturadas, cozinhadas no Josper, um forno a carvão que permite dar as propriedades fumadas duma típica grelha a carvão, mas também cozinhar de forma uniforme como num forno convencional. Excelente o Entrecôte Maturado, ainda que visualmente o tipo de corte mais parecesse vazia do que entrecôte (devido à camada de gordura localizada numa das extremidades), mas não percebo o suficiente sobre cortes de carne para ter a certeza disto. Portanto, resta-me comentar o excelente sabor que a carne tinha e o ponto perfeito em que vinha cozinhado, mal necessitando do uso da flor de sal que vem na tábua. Realmente fantástico!




O acompanhamento escolhido para acompanhar a carne é que não se mostrou à altura da proteína. A Abóbora Assada com Presunto fumado e Queijo Fresco estava demasiado unidimensional, o que é algo surpreendente quando um dos ingredientes é presunto!





Acabámos a refeição em grande estilo, com um excelente Mil-Folhas de Baunilha, Frutos Vermelhos e Sorbet de Morango, onde tudo apresentava uma execução impecável. Excelente a opção de frutos vermelhos e sorvete de morango para ir cortando com a riqueza do creme de baunilha.





Com os cafés, umas boas mignardises, ainda que não conseguisse identificar nenhum sabor predominante em nenhuma delas.





Não é um sítio para ir todos os dias mas a verdade é que é uma excelente opção para se jantar fora e está ao nível dos melhores restaurantes de Lisboa, nesta gama de preços! 


Akla
Lisboa, Portugal
Akla Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 60 €
Data da Visita: 24 de Abril 2017

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Arola (Linhó)

Até há alguns anos atrás nunca tinha ouvido falar de Sergi Arola. O nome do chef catalão nada me dizia, ainda que fosse um discípulo de Ferran Adrià ou que tivesse tido recentemente um restaurante em Madrid com 2 estrelas Michelin (o Gastro - entretanto já encerrado). Mas, com a curiosidade de conhecer os melhores restaurantes do país, um dos restaurantes que era bastante referenciado era este Arola, no Penha Longa Resort, onde Sergi Arola explorava uma cozinha com tapas a preços (relativamente) acessíveis. 
Em meados de 2015, no mesmo local, abriu o LAB By Sergi Arola, este já com aspirações a uma estrela Michelin, que acabou por conquistar há uns meses. A visita ao LAB será um must num futuro próximo (ou que tentarei ser próximo) mas queria primeiro conhecer o Arola.
Antes de falar sobre a comida, dois aspectos importantes. O espaço é muito bonito (pelo menos à noite) e é pena que num sábado ao jantar estivesse vazio. Por outro lado, o facto de termos o restaurante quase só para nós fez com que tivéssemos um serviço sempre pronto a acudir a qualquer e mínima chamada de atenção da nossa parte. E isto sem ser de forma alguma intrusiva! 
Gosto de pratos interactivos, quer seja com o prato a ser terminado na mesa ou a necessitarem de alguma acção final do comensal para que conjugue todos os elementos, como é o caso do Couvert no Arola. Pão de coca (um pão tradicional da zona da Catalunha), alho e tomate picado, onde o objectivo é descascarmos o alho, esfregarmos vigorosamente nas tiras de pão torrado e depois colocar um pouco do tomate, representando o tão tipicamente espanhol (e maravilhoso) pan con tomate. Ah, e o cheiro a alho com que ficamos nas mãos? Que se lixe, pois este é um restaurante com um ambiente descontraído e até o cheiro a alho nas mãos tem o seu encanto.



Bastante aceitável o Biqueirão (o nome português para um boquerone), com os filetes menos avinagrados do que gosto mas de boa textura e bem acompanhados por umas boas azeitonas explosivas (acho que já referi que ainda não me cansei desta técnica) e chips crocantes de alho.



Um dos melhores pratos da noite foi o Porco Ibérico, um carpaccio de presa de porco levemente "temperado" com pickle de malagueta verde, parmesão, pistáchio e maçã. Excelente combinação e equilíbrio entre todos os componentes, com os pequenos cubos de maçã a refrescarem-nos o palato a cada dentada.



Todos os grandes chefs têm os seus pratos de assinatura, aqueles pelos quais são conhecidos em qualquer parte do mundo e que acabam por incluir em muitas das ementas dos seus menus. Para Sergi Arola, um desses pratos são as suas Patatas Bravas (receita em vídeo aqui) e garanto-vos que são, muito provavelmente, as melhores que já experimentei.



Ia iniciar este parágrafo mencionando que o Pato Fumado tinha sido um dos momentos da noite mas a verdade é que quase todos os momentos estiveram perfeitos e este foi "apenas" mais um. Umas perfeitas croquetas de pato, bem ao estilo cremoso espanhol (como tudo neste restaurante), com uma fina lâmina do que parecia ser peito de pato fumado.



Não há como ir a um restaurante de tapas sem pedir os pecaminosos Ovos Rotos, ou neste caso, a interpretação dos mesmos por Sergi Arola, apelidada Ovos e Batatas. Uma gigante dose de batatas salteadas em alho e salsa com um ovo estrelado e presunto. Um prato bastante característico da gastronomia espanhola, ainda que nem sempre bem executado, mas aqui estava óptimo, com as batatas bem crocantes, um bom presunto, um ovo estrelado perfeito e um ligeiro toque picante.



O único prato que não deixou saudades foi a Courgette gratinada com queijo boursin, tomilho, limão e amendoim. O conceito pareceu-nos diferente e atractivo, a primeira garfada foi surpreendente mas quanto mais íamos degustando mais cansados íamos ficando com a unidimensionalidade do prato, acabando por se tornar algo enjoativo.



E, como bons e fanáticos fãs (um pouco redundante, eu sei) de Presunto, não poderíamos acabar a refeição sem um prato fantástico do mesmo, num prato bem servido de presunto 100% bolota Castro Y González. Perfeito, pois claro!



Não podia deixar fugir a sobremesa, ainda que já estivéssemos os dois perto de rebentar as costuras. Quis experimentar mais um prato típico da região natal do chef e a escolha recaiu no Copa Catalana, a versão de Sergi Arola da Crema Catalana (um doce parecido com o Leite Creme e com o Crème Brûlèe, ainda que com ligeiras diferenças na preparação e confecção). Neste caso, Sergi utiliza uma base de panna cotta de bolacha maria com um sorbet de tangeria por cima, sendo tudo coberto por um creme de citrinos e canela. Todos os componentes bastante bem executados e encaixam na perfeição uns nos outros.



A visita ao Arola deu-me ainda mais vontade de conhecer o LAB, pois estamos na presença de um dos melhores representantes da gastronomia espanhola que podemos encontrar em Portugal!

Arola
Linhó, Portugal
Arola - Penha Longa Resort Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 60 €
Data da Visita: 3 de Dezembro 2016

domingo, 29 de janeiro de 2017

Claro (Paço de Arcos) - Encerrado

Não é fácil ter os timings certos para a partilha de alguns artigos. Mas sinto o dever de partilhar as experiências que tenho, mais antigas ou mais recentes, melhores ou piores, para que fique na memória de uma pessoa que seja, um nome, uma imagem, um prato... um interesse que seja para futura (ou passada) referência. 
E há um nome que quero que todos retenham neste post, Vítor Claro. Foi ele o chef à frente do restaurante homónimo, no hotel Solar Palmeiras, em Paço de Arcos, terra que me viu nascer e crescer. E demorei tempo demais a conhecer a sua fantástica cozinha, algo que me pesa ainda mais agora que fechou e não sei quando a poderei voltar a experimentar. O Vítor decidiu dedicar-se a tempo inteiro à produção do seu próprio vinho, encerrando assim um dos restaurantes que mais cartas deu nos últimos anos, havendo mesmo quem dissesse que poderia estar próximo de ganhar a sua 1ª estrela Michelin. Esperemos que a sua ausência das cozinhas seja breve.
Antes de começar a falar sobre a fantástica refeição de 3 horas que fiz no Claro, no passado mês de Setembro, um agradecimento para o serviço exemplar do seu sommelier Thomas Domingues, que nos acompanhou durante toda a viagem.
Antes de ir ao Claro, li tudo o que havia para ler em blogues e sites sobre o chef, sobre os menus que apresentava, sobre o seu tipo de cozinha e criei as minhas próprias expectativas sobre o que esperar. Penso que nos devemos tentar informar o melhor possível sobre os sítios, principalmente quando vamos a um restaurante de autor. Perceber se o restaurante será o mais correcto para nós, se o tipo de técnicas usadas se enquadra nos nossos gostos. Pessoalmente não tenho muitos problemas com isso, pois sou um curioso natural, mas acabei por aprender que Vitor Claro apresentava pratos "simples" com os elementos bastante bem trabalhados, principalmente no que a caldos se diz respeito. E foram nesses pormenores que fui tentando ter mais atenção e também que me levaram a ter bastante curiosidade pela sua cozinha.
Começámos com um Couvert bastante simples, com pão, focaccia e manteiga, tudo feito na casa e de um bom nível mas sem a variedade que poderia estar à espera deste tipo de restaurante.


Fizemos o wine pairing, sugerido pelo Thomas, ainda que numa versão mais reduzida pois não queríamos sair completamente ébrios do restaurante, deixando as memórias bem vivas. Como tal, começámos com um fantástico espumante Quinta das Bageiras (Bruto Natural, 2014), feito sem qualquer adição de açúcar mas de uma doçura considerável, que acompanhou os primeiros dois pratos.


O primeiro prato era, até à data, talvez o mais icónico do Claro, com a sua interpretação do Bacalhau à Conde da Guarda, um prato com um impacto visual muito grande mas onde é promovida a simplicidade de ingredientes e os seus contrastes. Quente da quenelle de bacalhau com o frio do tomate, salgado contra acidez, cremosidade contra granularidade. Seria perfeito, não houvesse uma espinha no meu prato, algo que acho pouco admissível neste tipo de restaurante, mas o ar de "pânico" do empregado que recolheu o prato retratou bem o quão improvável e anormal é isto acontecer.


Bastante bom também o Filete de Carapau Alimado, mas gosto deste tipo de pratos mais avinagrados do que o que nos foi apresentado. Talvez o prato menos surpreendente e inovador de toda a visita, mas, ainda assim, um bom prato.


Para os seguintes pratos o Fossil (Branco, 2014) do Vale da Capucha.


A seguir, uma homenagem a um dos chefs com quem trabalhou, Santi Santamaria, na forma de um Raviolo de Gambas e Cogumelos, onde a gamba é trabalhada de forma exemplar a fazer o invólucro que protegem uns óptimos cogumelos salteados. Mais uma vez, simplicidade e uma brilhante execução, tal e qual o que esperaria de Vitor Claro.


Chegou a hora do momento menos conseguido da refeição, com um prato que não nos encheu as medidas e que não conseguiu fazer sentido para nós, a Terrina de Foie Gras de Pato e Alperce Seco Cozido com Especiarias. O alperce não conseguiu cortar na perfeição a riqueza do foie, principalmente por este se apresentar cru, e o sabor a funcho era demasiado pronunciado sobre todo o conjunto.


Continuámos com um Nieeport Dão (Branco, 2015).


Depois de um momento menos bom, mais um momento que nos fez soltar aqueles gemidos pecaminosos de satisfação com um perfeito Choco Grelhado com Molho Romesco. E quando digo perfeito, é mesmo perfeito! Um choco comprado na praça local, levemente passado na brasa mas o suficiente para trazer um pouco do sabor a grelhado para o choco e com uma textura perfeita. 


A Essência de Lavagante mostra a versatilidade deste chef nos seus caldos, com o lavagante perfeito na sua textura, a nadar num caldo trabalhado com caramelo. Mais um prato perfeito e de se sorver todas as gotas que existam na taça.


Thomas decidiu então passar para o tinto, abrindo as hostilidades com o vinho produzido por si próprio, em conjunto com Vitor Claro, o Foxtrot Dominó (Tinto, 2014), surpreendendo bastante a sua escolha porque o primeiro prato que iria acompanhar seria um prato de peixe. E que bem ligou...


...com o Filete de Linguado à Delícia, um prato inspirado no que se servia nalguns restaurantes de cozinha francesa da Linha de Cascais no século XX, que junta um delicadíssimo filete de linguado à doçura da banana caramelizada e à acidez dos cornichons.


O Foxtrot Dominó acompanhou ainda aquele que foi o prato da noite, e um dos Melhores que experimentei em 2016, o Caldo de Bivalves, Coentros e Presa de Porco. Se havia pratos que até agora tinham estado perfeitos, este alcançou todo um novo nível que até agora eu desconhecia, muito graças aos filetes de sardinha "surpresa" e que me espancaram o palato com a imensidão de sabor que continham. Sim, é estranha e arriscada esta combinação de sardinha e porco com um caldo de bivalves à mistura mas é inexplicavelmente bom.


Mudou-se o vinho para um Moinho do Gato (Tinto, 2014) da Quinta do Romeu.


E chegámos ao expoente máximo dos caldos que aqui eram feitos, com o Rosbife Laminado e Molho do Assado, onde a quantidade de umami que invade a boca através do molho é, atrevo-me a dizer, demais. A carne perfeita e algumas folhas de manjericão e hortelã para dar frescura ao conjunto tornaram este momento em mais um prato fantástico.


Ao longo da refeição notou-se um padrão nas influências que actuavam na cozinha, fosse pelas anteriores experiências laborais de Vítor Claro, fosse pelas convivências gastronómicas que tem, como é o caso do Leite Creme Bonsai, uma receita do restaurante Bonsai, do tempo de Mio e Ricardo Komori.


Para terminar uma longa e fantástica refeição, e numa altura em que o nosso estômago já não tinha espaço para muito mais, um Moscatel de 2014 da Casa Agrícola Horácio Simões (sobre a qual já falei aqui).


Que acompanhou a última sobremesa, na forma de uma Ameixa de Elvas e Massapão. Uma nota de boca já demasiado doce para o meu palato mas as texturas e os sabores tão tipicamente portugueses estavam lá perfeitamente representados.


O estereótipo que existe em volta da alta cozinha e (vou usar um termo que não gosto muito de usar) "gourmet" faz algumas pessoas pensar em pratos demasiado elaborados para as "caganitas" apresentas, sem sentido e sem sabores aprumados, sendo cobrados de forma excessiva. 
Vitor Claro prova a todas essas pessoas o contrário. Base de sabores bastante portuguesa, com os ingredientes certos a destacarem-se em cada prato e com uma procura pela perfeição dos sabores em cada prato. E esteve quase sempre perfeito! O que torna justificável e justo o preço cobrado por uma experiência como esta.
Um restaurante e um chef que deixarão saudades... Daí a necessidade que senti em escrever este texto mesmo com o restaurante já encerrado (e também pelo estímulo provocado por uma acção semelhante no blog Ovo Cru).

Claro
Paço de Arcos, Portugal
Restaurante Claro Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 60 €
Data da Visita: 7 de Setembro 2016

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Talho (Lisboa)

Kiko Martins entrou de caras na cena gastronómica lisboeta (e nacional). Viajou o mundo, voltou, lançou um livro e abriu um restaurante de sucesso. Pareceu fácil, pareceu natural e a'O Talho seguiram-se A Cevicheria e O Asiático mas só foi possível graças a muito (e bom) trabalho. Neste momento, Kiko Martins parece uma máquina imparável e está já a preparar a abertura do seu 4º restaurante (O Watt, na sede da EDP). Isto só para falar no que a restaurantes diz respeito e tentando passar ao lado das inúmeras aparições televisivas que vai fazendo. Mas será que todo este sucesso é justificado?
O "meu primeiro Kiko" teria que ser o original...fazia-me sentido ir à "casa-mãe" e ver onde "tudo começou" (ok, se calhar estou a abusar das aspas e dos chavões). As primeiras visitas fizeram-se para experimentar a vertente talho e, tentando não me alongar muito, é muito bom! Mais caro que os talhos normais, inclusive os ditos gourmet, todos os produtos que trouxe de lá são muito bons e já lá fui algumas vezes só para ir buscar carne!



Mas falemos sobre a vertente restaurante e tentemos não nos alongar. Primeiro, o espaço é bonito e gosto, particularmente, dos tons mais sóbrios. Especialmente por contrastarem com um serviço descontraído e jovial, ainda que perfeito. É fácil notar que se está num dos melhores restaurantes da cidade apenas pela qualidade do serviço.
Aqui, apesar do tema principal ser a carne, ou não estivéssemos nós num talho, a ementa sofre influências de todo o mundo e a primeira prova disso é a variedade de pão no Couvert, onde podemos apreciar pão português ao lado de uma focaccia ou de papadum. Um início bastante auspicioso para o que seria esta viagem pelos sabores do chef Kiko Martins.



Antes das entradas chega uma pequena oferenda por parte da cozinha, na forma de um Creme de Castanha com Amêndoa que nos aquece e reconforta numa fria noite de Janeiro.



Logo na primeira entrada, o restaurante consegue superar-se a ele próprio. Os Croquetes de Cozido à Portuguesa são bons quando comidos em casa (podem-se comprar congelados) mas não se compara à experiência de os comer no restaurante acompanhados por uma fantástica maionese de chouriço.



Ainda que estando num talho, a ementa incorpora um dos pratos chave de outro restaurante de Kiko Martins, o Ceviche Puro. Excelente da primeira à última dentada, com as notas ácidas perfeitas no leche de tigre e um bom jogo de textura, principalmente na batata-doce em 2 texturas.



Mas O Talho não é um restaurante que se leve muito a sério. Quer dizer, leva-se a sério e tudo o que faz, fá-lo seriamente bem, mas não deixa de ser um restaurante que quer proporcionar experiências diferentes e brincar com o que conhecemos. O melhor exemplo disso é o seu Tártaro, com uma interpretação e um empratamento que nos leva a pensar em sushi. A alga nori está lá e temos um creme de rábano, que nos leva a pensar no sabor do wasabi, substituindo o uso da tradicional mostarda de Dijon. Temos ainda um shot de vodka, que podemos beber, mas que serve para misturar com a carne, iniciando um ligeiro processo de cozedura. Acompanha com umas batatas fritas fantásticas. Excelente textura e excelentes sabores num dos melhores tártaros lisboetas!



O Surf and Turf (que se encontrava disponível na altura), um Quinoto do Mar com Tonkatsu de Barriga de Porco, foi menos consensual na mesa. Se a minha paciente e corajosa companhia (pois é preciso paciência e coragem para me aturar nestes desvarios), não ficou minimamente impressionada com o prato que (quase) lhe impus (queria o Tártaro só para mim e ainda queria muito muito muito experimentar este!). Já eu tive uma opinião muito contrária. Apesar de ser um prato algo pesado, com um quinoto de densos sabores a mar a não conseguir contrabalançar completamente a riqueza da barriga de porco, achei que os dois sabores juntos conseguiam funcionar. A minha imposição sobre a escolha do prato seria só para provar mas não resisti e "ajudei" a acabar o prato.



Para terminar a refeição, um Crumble que esteve demasiado rico, demasiado doce e pouco equilibrado, com a manteiga de amendoim e o dulce de leche a não conseguirem ser totalmente cortados pelo uso da lima.



Ainda que terminando numa nota menos boa, toda a refeição esteve num patamar muito alto. A definição de barato ou caro varia consoante o valor pessoal que damos a uma experiência. Consoante o valor que nós próprios damos à satisfação com que saímos do restaurante. E deixem-me dizer-vos que saí muito satisfeito d'O Talho.

O Talho
Lisboa, Portugal
O Talho Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 50 €
Data da Visita: 13 de Janeiro 2016