quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Uma questão de qualidade (ou falta dela)!

Há coisas que não fazem muito sentido. Se um restaurante chega a um patamar de qualidade, não deveria trabalhar para se manter com essa qualidade? Qualquer decréscimo da mesma poderá influenciar novos ou habituais clientes. Eu sei que a pressão e o trabalho para manter um padrão de qualidade é muito, mas tal é necessário para que se consiga manter uma quantidade de clientes suficientes para podermos prosperar no mundo da restauração.



Se há coisa que me irrita é repetir um restaurante (algo relativamente raro em mim) e esse restaurante presentear-me com uma refeição muito abaixo daquilo que já la experimentei. Que seja um pouco abaixo eu até aceito, mas quando há uma notória queda na sua qualidade isso deixa-me irritado. Irritado e sem vontade nenhuma de regressar, porque sei que já foi bem melhor. Pior ainda quando vou lá com alguém porque lhe disse "Temos que ir ali, que vamos comer muita bem!" (sim, usei a palavra muita qual Jorge Jesus de devaneios gastronómicos!).


Ok, agora que este desabafo já me aliviou alguma pressão do peito, passo a explicar. No espaço de menos de 1 mês consegui ser vítima destes "descuidos", em 2 espaços distintos. Decidi voltar ao Gaijin Sushi Bar (sobre o qual já falei aqui) e experimentar a renovada carta do All You Can Eat. Uma ementa mais extensa, com peças novas, nomeadamente mais variedade nos gunkans, temakis e alguns spring rolls (com folha de arroz no lugar de alga), mas com algumas limitações de pedidos no sashimi e nos gunkans. Por exemplo, se desejarmos nigiris existe uma taxa extra de 3€ e continua a haver a taxa de 1€ para cada peça que não seja consumida.



Ok, políticas da casa à parte, o que me chateou foi a qualidade da comida ter sido pouco acima da média (deixando de ter uma relação qualidade/preço que considerava justa) e o terrível e baralhado serviço. Pratos com peças não pedidas e a chegar em duplicado foi o prenúncio de uma refeição que de nada teria de especial. Juntando a isso um arroz que não estava ao nível das anteriores visitas e a baixa qualidade demonstrada nalgumas peças (por exemplo, os rolos com pele de salmão tinham a pele dura e seca), ignorando ainda o facto de se poder considerar o menu algo limitado ao nível da criatividade (o que a mim não me chateia muito, desde que as coisas sejam bem executadas), então o Gaijin deixa de ser um restaurante que eu recomende facilmente.


O mesmo se passou com o tão famoso Ramires e o seu Franguinho da Guia. Se no ano passado, algo estranho se passou (podem ler mais sobre isso aqui), este ano foi uma desilusão tremenda. O frango não estava nada de especial, a salada não estava bem temperada e as batatas eram deploráveis. Neste momento, existem melhores (e mais baratas) opções para comer frango por todo o Algarve e até Lisboa!


Parece que se encostam à fama e se desleixam. Sei que a fama ganha dará para compensar a perda de alguns clientes a curto prazo, mas caso os restaurantes continuem assim não acham que poderão vir a sofrer? Não digo que precisem de se reinventar mas precisam, sem dúvida, de arranjar alguma forma de obter um feedback especializado e saber o que trabalhar para, pelo menos, manter a qualidade. Já não falo na questão de melhorarem, mas manter! 
Honestamente, não sei quando voltarei a qualquer um destes restaurantes, pois a vontade de gastar dinheiro num sítio que deixou de me satisfazer não é muita, principalmente quando há ainda tanto por experimentar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mercearia do Peixe (Caxias)

Há muitos anos atrás fui a um restaurante, em Caxias, chamado Mercearia do Peixe e acabei por comer carne! E não estava nada mal, refira-se com honestidade. Mais pormenores, menos pormenores, achei que era um restaurante engraçado e até com uma ementa variada. Única coisa que me tinha realmente irritado era o facto da ementa ter Filet Mignon de Porco Preto. Apesar de ainda não ser tão aficionado à comida como sou agora, esse facto deixou-me algo arreliado pois este é um corte específico de raças bovinas.



Enfim, anos passaram e a verdade é que quase me tinha escapado da mente. Até que surgiu um almoço de família e lá acabei por ter uma segunda oportunidade na Mercearia, e desta vez iria para o peixe! A ementa é realmente variada e apresenta várias propostas com qualidade tanto na vertente carne como na de peixe, como as montras das mesmas demonstram. Para os leitores vegetarianos, lamento, mas não sei.



Com muitos membros familiares fãs dessa iguaria que são as ovas, mandámos vir umas Ovas Pescadas Grelhadas para irmos picando, enquanto aguardávamos pelos pratos principais. Para o efeito de partilha, as ovas surgiram já cortadas mas a nível de grelha poderiam estar melhores. A pele ainda mostrava alguma resistência acabando por se tornar um bocado borrachosa. Para não se tornarem tão secas, um vinagrete caseiro, talvez até com uma cebola picada, poderia ser uma ideia mais engraçada que o simples limão.



Tive também a oportunidade de provar o cantaril, perfeitamente cozinhado e a apresentar uma textura carnuda mas húmida, e o polvo à lagareiro, macio mas sem grandes apontamentos a fazer.
Para prato principal, escolhi umas Sardinhas Assadas que devem ter passado umas horas na praia, sem protector solar, antes de virem para a mesa, tal era a cor que algumas apresentavam. Tirando a ligeira carbonização externa, parece-me que o restante problema era da qualidade da própria sardinha e não da sua confecção. Este almoço realizou-se a meio de Junho e os exemplares de sardinha que experimentei ainda não pareciam estar na melhor das suas capacidades. 



Não é um restaurante que me fascine, apesar dos seus preços acessíveis e da variedade existente na ementa, mas ainda assim é uma opção relativamente segura para qualquer almoço de baixa despesa e bastante variedade.

Mercearia do Peixe
Caxias, Portugal
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Preço Médio: < 20 €

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Volver by Chakall (Lumiar)

Por vezes, os restaurantes parecem menosprezar clientes que se apresentam com vouchers ou com qualquer tipo de vale de desconto. São olhados como os poupadinhos, que tentarão fazer a refeição sem grandes gastos e provavelmente não deixarão gorjeta. Por isso, parece que o serviço se torna mais atencioso para com os clientes "normais", sendo desleixado e despreocupado para com quem aproveita estas promoções.
Mas em restaurantes como o Volver by Chakall isto não acontece! Somos respeitados e estimados como qualquer outro cliente, apresente voucher ou não (fui lá com um vale 2 por 1 da Time Out). O serviço foi sempre bastante profissional, notando-se uma preocupação com a satisfação dos clientes e garantindo que tudo estava do nosso agrado. O único problema que notei foi a existência de alguma demora entre as entradas e os pratos principais. 
Óptimos cocktails, principalmente o Daiquiri de Morango e Gengibre, mas também o gin, um Plymouth com romã, estava bem preparado, ainda que seja algo bastante mais simples quando comparado com um daiquiri.




A ementa não é nada fácil. Não é que seja esquisita ou com mau lettering mas porque ficamos com uma quantidade salivar extraordinária só de ler. Deixa-nos com vontade de provar tudo. Como tal não é possível, decidimo-nos por 2 entradas e 3 pratos principais (sendo que um deles é sugerido para 2 pessoas). A falta de luz nas fotos é natural, pois o Volver apresenta uma decoração bonita mas algo escura, tentando deixar um ambiente mais intimista e com pouca luz, algo que não ajuda quando andamos a tirar fotos à comida mas isso é um problema meu e não do restaurante!
O Couvert é bastante variado, tentando dar uma amostra da variedade e qualidade que se pratica no Volver. Muito bom hoummos e interessante combinação de cogumelo, puré de ervilha e crumble de morcela. Mesmo não sendo um fã de azeitonas, devorei sem misericórdia o scone de azeitona e a tapenade.



A cozinha do Volver não é necessariamente uma cozinha de autor ou complicada. Baseia-se também na qualidade dos seus produtos e na arte de os deixar brilhar sozinhos, como é o caso do excelente Chorizo Argentino con Chimichurri. Diferente dos chouriços ibéricos, e também por vezes chamado chouriço crioulo, não parece ter passado intensivamente por um processo de cura ou de fumo, apresenta-se quase fresco, sendo depois grelhado e regado com o chimichurri.



O Provoleta com Azeitonas e Bacon é qualquer coisa ridiculamente viciante. Não é uma fórmula muito difícil eu sei. Um bom queijo derretido, azeitonas (que eu pessoalmente dispensava mas é um gosto pessoal) e bacon. Algum pão torrado para acompanhar et voilà, uma entrada que vai deixar todos na mesa a desejar ter pedido mais do que uma dose daquilo. Guloso, pecaminoso e viciante provoleta. Pequeno apontamento para as facas que vêm com o queijo não darem muito jeito, sendo mais útil uma colher e uma faca. O pão que acompanha poderia ter maior largura para suportar melhor o peso do queijo.



O Baby Beef, um bife de vazia maturada de 500g, é uma das estrelas da casa. Carne bastante saborosa, apesar de não ser extremamente macia, oferecendo uma ligeira resistência. As pontas da peça não estavam bem limpas e tinham alguns nervos, tornando-se um pouco mais complicado de as mastigar. Tudo o resto estava impecável. Apesar de indicar que será para duas pessoas, a qualidade é tal que acho que conseguiria dar cabo de um bife destes sozinho.



Pouco menos saboroso, mas mais macio, o Olho-de-Boi (300g) é a confirmação que aqui a carne é tratada como em poucos sítios. Não só a qualidade das peças é das melhores em Lisboa, como a simplicidade com que é cozinhada e apresentada torna o Volver um restaurante de visita obrigatória.



Para entrar na "Alma" do restaurante, pedimos ainda o Wellington's Back, a interpretação do clássico prato britânico, Beef Wellington. A carne não poderia ser mais macia, desfazendo-se na boca, e todas diferentes variantes de sabor se ligam muito bem. O queijo da serra dá-lhe um toque salgado que conjuga na perfeição com o doce do mel e a pimenta rosa, acabando por ser tudo suportado pela duxelle. A temperatura da carne estava impecável mas a massa folhada poderia estar um pouco mais cozinhada, tendo o interior ainda um pouco encruado.



Acompanhámos os pratos com um Puré de Espinafres e Banana que me pareceu doce demais e sem grande encanto, um Mix de Batatas Fritas sem uma história de destacar e um excelente Arroz de Pinhões e Coentros. 
De louvar como em nenhum dos pratos a temperatura estava incorrecta. Pedimos as carnes mal passadas e foi exactamente isso que recebemos. 
Os 3 molhos que acompanham as carnes são todos muito bons, ainda que o Crioulo de Manga fosse o mais discreto e que menos aconselharia para acompanhar carne grelhada. Tanto o Chimichurri como o Diávolo estão aprovadíssimos
Depois da qualidade constante que todos os pratos mostravam pensei que não fosse possível as sobremesas estarem ao mesmo nível. Mas enganei-me! Estavam fantásticas, sendo o final perfeito para uma refeição de grande nível. Sinceramente, nem sei qual delas a melhor, se o maravilhosamente preparado Crumble de Morango e Ruibarbo, onde a acidez se intromete na doçura num equilíbrio digno de um trapezista do Cirque du Soleil, ou se a famosa Torta Rogel, com as texturas contrastantes e o viciante sabor do dulce de leche. Os morangos ajudam a cortar alguma da doçura excessiva desta última. Das melhores sobremesas que experimentei, seja em Lisboa ou em qualquer parte do mundo.


Crumble de Morango e Ruibarbo
Torta Rogel
O Volver by Chakall não é um restaurante barato. Existem em Lisboa outros restaurantes para comer carne com preços mais apelativos e com carne de excelente qualidade, mas no cômputo geral este é um dos melhores restaurantes de Lisboa, seja qual for a categoria onde o queiram inserir. 
Sem dúvida alguma hei-de voltar para o Menu Cool Taping, que me parece ser muito apelativo para um simpático jantar de amigos, com a partilha a ser a palavra de ordem.

Volver by Chakall
Lumiar, Portugal
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Preço Médio: < 40 €

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Tomoaki Kanazawa vai deixar o Tomo!

Hojé é o último dia em que poderão ver Tomoaki Kanazawa atrás do balcão do Tomo. O chef e dono do mais tradicional (e, quiçá, melhor!) restaurante japonês vai deixar o Tomo aos cuidados dos seus ex-colaboradores. Tomoaki deseja abrir, em meados de Outubro, um restaurante de apenas 8 lugares onde servirá os seus famosos menus de degustação kaiseki e sushi. Juntar-se-à a ele a sua mulher, responsável pelas originais e brilhantes sobremesas servidas no Tomo, e a filha.

Ouriço do Mar Vaporizado com Ovo Escalfado e Molho de Ovas de Peixe
Sashimi
Esta será certamente uma das maiores bombas gastronómicas do ano e, devido à sua lotação, irá tornar-se num dos restaurantes mais exclusivos na zona de Lisboa, mais precisamente Pedrouços. A exclusividade é tal que o restaurante apenas aceitará reservas feitas online.

Burrié Cozido e Dashi (esquerda)
Fígado de Tamboril Enrolado com Aroma de Alho e Shiitake (cima)
Gelatina de Caranguejo (baixo)
Lavagante Grelhado com Molho de Miso Fermentado e Iogurte
Mas fica a questão, e o que acontecerá ao Restaurante Tomo, cujo próprio nome era representativo do seu itamae? Manter-se-à como um restaurante de topo na cidade ou perderá muita da sua qualidade? Manterão o conceito tradicional ou tentarão enveredar pela vertente de fusão? Acabarão os menus de degustação kaiseki? Até que ponto os (agora) ex-colaboradores de Tomoaki estão preparados para assumir o leme de um dos restaurantes japoneses mais emblemáticos de Lisboa?

Bochecha de Porco Ibérico Guisada com Bolota e Castanha
Daifuku com Gelado (esquerda)
Opera Cake (cima)
Cheesecake (direita)
Aguardamos mais novidades quanto à abertura deste novo espaço de Tomoaki Kanazawa e estaremos atentos às notícias que possam surgir relativas à continuidade do Tomo, principalmente no que se refere ao conceito e qualidade.

Fonte: Mesa Marcada

Algés, Portugal
Tomo Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 60 €

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Fenícios Castilho (Lisboa)

Desde que comecei estes meus devaneios por gastronomia, com especial destaque para restaurantes, uma das áreas pela qual a minha curiosidade tem recaído é a cozinha oriunda de diferentes países. Por vezes precisamos de sair da segurança da nossa cozinha e aventurar-nos em sabores que não conhecemos. Sair da casca ou, usando a expressão do foodie Rodrigo Meneses (o curador da nova Academia Time Out), "sair da despensa".
Graças a um convite da Zomato, pude experimentar um dos poucos restaurantes libaneses da cidade, o Fenícios Castilho, dos mesmos donos de outro libanês, o Fenícios. A entrada do prédio pode passar um pouco despercebida, mas o restaurante está localizado no Piso 7 do edifício (o que dá uma vista fantástica sobre a cidade de Lisboa), onde está a União de Associações do Comércio e Serviços, caso andem a passear pela Rua Castilho. Um pormenor (muito!!) importante, o restaurante apenas funciona ao jantar, sendo que para o serviço de almoço é um restaurante de conceito português chamado Varanda da União.
O serviço do restaurante é simpático, com especial destaque para o chefe de sala que nos deixou à vontade e se mostrou sempre prestável e informado sobre a ementa praticada. As restantes empregadas não pareciam estar tão à vontade, mesmo apesar da simpatia que demonstravam, mas num restaurante libanês é necessário um serviço informado.


Não fiz um grande trabalho de pesquisa anterior à visita, pois queria ir desafiar o desconhecido, sem expectativas. A única coisa que sabia, de há uns meses quando adicionei o restaurante à wishlist, era que a Mezza Fenícia corresponderia a várias entradas típicas para se provar, não sendo necessário muito mais (1 prato ou mais 1 ou 2 entradas) para que duas pessoas ficassem satisfeitas. Aliás, da forma como a ementa está construída, é possível fazer uma refeição só petiscando ou pedindo pratos mais substanciais, muitos deles com uma grande base vegetariana. Faltando bebidas libanesas, pois não é fácil manter produtos importados em stock, bebeu-se um recomendado tinto Quinta de Fafide Reserva 2013.



Começámos pela já mencionada Mezza Fenícia, que traz um conjunto de 8 taças, todas com uma entrada típica libanesa. Pediu-se ainda Kibbe, Foul Moudamas e Moussaka, para complementar a Mezza, optando por não pedir nenhum dos pratos principais. Acho que todos os nomes dos pratos estarão correctos, mas peço desculpas antecipadas caso algo me tenha falhado.
Labneh, uma variante de iogurte grego que pode ser feito à base de leite de vaca ou de cabra, é um creme fresco e de suave sabor.



Tabbouleh é uma salada bastante fresca e aromática, sendo interessante e muito boa. A conjugação dos sabores picados da salsa, cebola, tomate e azeite levam-nos para as saladas algarvias, o que me parece possível devido às influências mediterrânicas comuns. Tem ainda trigo, hortelã e sumo de limão, tornando esta salada bastante adequada para o Verão.



Um prato comum, e alvo também de várias interpretações mediterrânicas, consiste em folhas de videira recheadas, o que no Líbano tem o nome de Warak Enab. Neste caso, a folha é recheada com arroz, tomate e salsa, sendo depois cozinhada e acabando por infundir o arroz com as suas secreções. Mais uma proposta interessante e saborosa.



Bastante saborosas estavam as Batatas Harra. São anunciadas como picantes mas não consegui encontrar qualquer referência palatal ao mesmo, sendo todo o sabor dado pelo salteado com alho.



Um Hoummos muito bom, de excelente consistência e bom sabor. Para usar e abusar com o pão libanês achatado (tipo pão pita) que trazem para a mesa.



O prato que menos apreciei em toda a Mezze foi o Lahm bi Ajin, uma pequena tarte recheada com carne, apesar de ser descrito como uma pizza libanesa. A massa do pão estava mal cozida e parecia quase reaquecida, acabando por ficar um pouco borrachosa, e o recheio estava seco.



O Moutabal, mais conhecido como Baba Ghanoush, é um puré de beringelas grelhadas com pasta de sésamo, alho e limão. Fantástico o sabor a fumado que as beringelas transmitem a todo o puré.



O Falafel, por vezes injustamente colocado na mesma categoria das "Pitas Shoarma" de Centros Comerciais, foi uma das estrelas da noite. Exterior perfeito de crocante e fritura, com um interior diferente da típica pasta de grão a que estamos habituados. Muito saboroso e a aproximar-se mais da ideia que eu teria da intensidade das especiarias usadas, pois quase toda a refeição pareceu ser demasiado suave neste ponto.



À semelhança do falafel, o Kibbe, um pastel recheado com carne picada, também estava bastante bem frito e com um perfil de sabores interessante, com o interior a não se apresentar excessivamente seco. Mais um prato que me aproximou dos sabores imagináveis do Médio Oriente.


Para quem é um fã de leguminosas, o Foul Madamas cumpre e satisfaz. Uma fresca salada de grão-de-bico e favas cozidas, faltando-lhe apenas uma maior profundidade de sabores.


A Moussaka, uma versão bastante diferente da homónima grega, a ter um perfil de sabores que me relembrou do típico prato português bacalhau com grão, mas sem o bacalhau. Bom, mas pensei que iria encontrar sabores mais fortes.



Já com pouco espaço no estômago, o chefe de sala antecipou a nossa vontade de conhecer os doces libaneses e decidiu trazer 3 sobremesas para que nos fosse possível conhecer alguma das variedades disponíveis. Nas sobremesas foi um pouco mais complicado relembrar os nomes, mas com a ajuda de alguma pesquisa online penso que consegui desvendar as experimentadas.
O Meghli é uma espécie de pudim, feito com farinha de arroz e canela, algo desenxabido e sem qualquer vestígio de açúcar na sua constituição. Foi-nos previamente avisado que a sobremesa é mesmo assim, mantendo a receita libanesa, mas que nos deram a provar por ser uma sobremesa típica.



O Osmallieh é bastante interessante em toda a sua conjugação de sabores e texturas, mesmo que não se evidencie muito a aletria. O creme de leite utilizado para cobrir a sobremesa é fantástico e os frutos secos ajudam a conferir textura e algum adocicado extra.



Com um perfil de sabores parecido, a Mouhallabieh é um pudim com flor de laranjeira, onde estes últimos sobressaíam acima de tudo. Mesmo cheios, desta sobremesa não sobrou nada!



Para além do Kibbe e do Falafel, que mostravam uma bom uso de especiarias, os restantes pratos pareceram ficar um pouco aquém das expectativas neste aspecto, ainda que a sua confecção tenha sido sempre boa. Apenas estava à espera de algo mais arrojado mas, e apesar das influências mediterrânicas comuns que podem existir, a ementa pareceu ser sempre demasiado segura e mais próxima dos sabores a que estamos habituados. Quando isto foi dito ao chefe de sala, foi-nos confirmado que os pratos foram adaptados ao palato português com o intento de assim conseguir agradar e cativar mais clientes. Sinceramente, acho que deveriam ser fiéis às suas origens e manter a tradição dos seus pratos, dando a conhecer a verdadeira cozinha libanesa, e não uma versão ocidentalizada. 
Tirando a expectativa de sabores que levava, tudo o resto foi realmente digno de uma refeição bastante boa. Boa vista, boa comida, bom serviço e tudo isto a preços justos.

Fenícios Castilho
Lisboa, Portugal
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Preço Médio: < 20 €

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

SOCIEDADE (Parede)

Uma das melhores refeições do ano de 2015, num restaurante que me vinha aguçando a curiosidade desde a sua abertura, em Novembro de 2014. A SOCIEDADE (assim mesmo com o nome totalmente capitalizado) é um renovado restaurante na SMUP (Sociedade Musical União Paredense), que promete sabores portugueses com um twist. Adoro reinvenções de pratos e sabores clássicos, portanto fiquei automaticamente curioso com o conceito.
Mas já muitos conceitos me fizeram perder de amores apenas para depois me deixarem de coração partido com altas expectativas. A entrada no restaurante é feita com sorrisos, gestos e palavras simpáticas. Algo que se estende ao longo do tempo como se de clientes habituais nos tratássemos. E foi assim que nos sentimos durante todo o jantar, com o serviço a fazer-me apaixonar-me pela casa e pelo espaço. Ah, já vos falei da ementa? Babei-me, sobre a folha que nos foi entregue, durante todo o longo e penoso processo de selecção. Por mim, vinha tudo! Caso se sintam neste labirinto amoroso, entreguem-se ao serviço e deixem-se levar pelo que vos poderá ser proposto.



Com o couvert, um pão cortado com uma grossura milimétrica e dois tipos de manteiga (cabra e ovelha), é colocado na mesa um Queijo Fresco e Azeite impecável e um prato de Enchidos de Porco Preto e Não Só cortados tão finos que se conseguiam ver à transparência. A delicadeza de um excelente queijo fresco regado de um azeite também de bom nível abrem as hostilidades para uns enchidos que fazem as delícias do meu palato. Sempre ouvi dizer que um homem se conquistava pela barriga, e eu já não precisava de muito mais do que isto para ficar rendido. Mas a refeição ainda agora tinha começado...




A fome neste jantar não era muita (também não pode ser sempre a alarvar, não é?) por isso optámos por pedir 2 petiscos e 2 pratos para dividirmos por 3 adultos e 1 criança. Reparámos depois que as doses de petiscos são de tamanho generoso, daí o preço geral dos petiscos (rondam os 8€, se não me engano) ser mais alto do que estamos habituados. Claro que a qualidade deste SOCIEDADE também é mais alta do que estamos habituados.
Começámos por um Escabeche de Pato muito bom, com uma quantidade invejável da dita ave, e sem qualquer excesso de gordura. A cebola acrescenta-lhe pormenores adocicados, parecendo-me ainda reparar numa ligeira nota cítrica na preparação do prato. Talvez um pouco mais de acidez pudesse ajudar o prato a brilhar ainda mais mas nada de grave.



O segundo petisco escolhido foram uns fantásticos e gulosos Cogumelos, Pancetta e Queijo Emmental, um twist genial nos típicos cogumelos salteados com a adição do emmental a funcionar na perfeição neste típico petisco. Apenas a quantidade de pancetta era algo escassa, acabando por se esconder atrás do sabor dos cogumelos e do queijo. Apesar de o prato ser excelente com os cogumelos paris (Agaricus Bisporus), cada vez sou mais adepto da utilização de cogumelos diferentes e acredito que ajudaria a dar mais "encanto" a este prato. Transforma o sabor dos pratos, confere diferentes texturas, etc.



Muito acima da média estava também o Leitão, Batata-Doce e Abacaxi. Um belo "naco" deste jovem suíno, com a carne muito macia e a desfazer-se na boca, mas a pele poderia estar mais tostada e mais estaladiça. A combinação original do abacaxi com o leitão funciona e surpreende-nos o palato. Acompanha com umas boas chips de batata-doce. Por esta altura já andava a suspirar alto e a pensar que teria que vir a este restaurante mais vezes, mas a refeição ainda nem tinha acabado.



Faltava ainda o prato da noite. Aquele pelo qual me rendi, me ajoelhei, me lambi e que fiquei a desejar mais, as Bochechas de Porco Preto, Pão e Tomate (adoro estes nomes com só 2 ou 3 ingredientes e que nos deixam curiosos com o que será). Estas foram, sem dúvidas ou segundos pensamentos, das melhores bochechas que já comi! Desfiavam-se imediatamente ainda nós estávamos a tentar dividi-las pelos pratos. O seu sabor enchia-nos a boca, mostrando-se relutante a abandonar-nos o palato e a mente. Umas óptimas migas de tomate ajudavam a tornar este prato mais rústico do que sofisticado. O único elemento que dispensava no prato era uma espécie de ratatouille que, apesar de perceber a sua ideia, não me pareceu minimamente necessário para dar vida a um prato que está perto da imortalidade.



Para terminar uma refeição fantástica, e para saber se as sobremesas estariam ao nível de tudo o resto, pedi uma Panna Cotta com Abóbora. Excepcional a execução da panna cotta, extremamente cremosa e a colmatar a sua normal neutralidade com um doce de abóbora fora do comum. Encheu-me o coração de memórias do doce de abóbora que a minha avó há muito não faz.



Um jantar fantástico, cheio de sabores portugueses mas ainda assim com apontamentos originais e que me deixa com borboletas no estômago para uma próxima visita. A paixão criada por toda a envolvência do restaurante, desde o seu serviço à qualidade da comida, deixa marcas. Marcas essas que espero reviver, numa data preferencialmente não muito longínqua.

SOCIEDADE
Rua Marquês de Pombal, 319
Parede, Portugal
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Preço Médio: < 30 €