quinta-feira, 9 de agosto de 2018

C.O.W. - Beef & Cocktails (Santos)

Se há meia dúzia de anos me perguntassem onde se poderia comer carne maturada em Lisboa, teria sérias dificuldades em responder. Mas o paradigma felizmente mudou e, com a desmistificação do que é carne maturada, começaram a surgir steakhouses, com a dita cuja, um pouco por toda a cidade e para (quase) todos os bolsos.
Há cerca de 2 anos abriu, em Santos, o C.O.W. Beef & Cocktails que, como o nome indica, tem como especialidade a carne bovina, não só em cortes como também picada. Por mera curiosidade, em Santos, nuns meros 500 metros, existem cerca de 3 casas a apregoar carne como a sua especialidade! Só para o caso de podermos achar que não há oferta suficiente...
O início não foi o melhor com o Couvert a parecer escasso, principalmente quando cobram 2,5€ por 2 fatias de bolo do caco de beterraba e 3 fatias de bolo do caco tradicional, que nem sequer eram de grande qualidade. Safou-se a tapenade e a manteiga de ervas.


Há uma coisa que os restaurantes devem ter em conta quando escrevem a sua ementa. O prato deveria corresponder à imagem mental que os clientes dele criam na sua cabeça (excepção feita a quando este efeito é propositado). Pedimos os Rolinhos de Queijo de Cabra e Presunto, imaginando uns rolos de presunto com queijo de cabra lá dentro, ou algo do género. O que nos chegou à mesa foi uma tábua com uns gulosos rolinhos de massa filo recheados com queijo de cabra e salpicados com mel (a lembrar a entrada turca Sigara Börek) e, ao lado, algumas fatias de um presunto que não era excepcional. Acabámos por comer a entrada como se de duas separadas se tratassem, já que o presunto não era intenso o suficiente para contrastar com o queijo de cabra e o mel.


Mas a estrela principal, e responsável por toda e qualquer expectativa face ao restaurante, não desiludiu. Optámos por um dos cortes especiais, nomeadamente a Vazia Rubia Galega, que chegou à mesa perfeita. Sim, não é uma das 15 raças bovinas autóctones, e temos carne maravilhosa que muitos desconhecem no nosso país, mas esta Rubia Galega é também qualquer coisa de fantástica, principalmente quando assim cozinhada, simples, sem grandes maquilhagens e deixando a carne falar por si só.


Acompanhámos com umas boas Batatas Doce Fritas e um caldoso Arroz de Cogumelos e Espargos que precisava de mais sal e de um caldo mais intenso, revelando-se algo sensaborão. O detalhe de ter tábuas (já é um cliché neste tipo de restaurantes) e colocar o arroz caldoso na mesma fez-me realmente questionar a opção ao nível do serviço, mas tudo correu bem e nenhum molho se derramou sobre a mesa.



Entre o facto de estarmos já algo cheios e a hora de início de uma das noites de comédia do Xafarix Comedy Club (que irão voltar em Setembro!), decidimos não arriscar na sobremesa.
Ainda que tenha uns pormenores a melhorar, aquilo que fica é um restaurante com excelente carne e um local a considerar sempre, entre os muitos parecidos que têm aparecido e que continuarão a aparecer.

C.O.W. - Beef & Cocktails
Santos, Portugal
C.O.W - Beef & Cocktails Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
TheFork
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 12 de Abril 2018

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Victor (Póvoa do Lanhoso) @ Mesas Bohemias

Acho que já expliquei o conceito do Mesas Bohemias (aqui) vezes suficientes para quem me segue há algum tempo já conhecer e perceber o conceito. Para quem não conhece, farei um breve resumo. O Mesas Bohemias tem o intuito de trazer o melhor da gastronomia portuguesa a Lisboa e ao Porto, trazendo restaurantes e respectivos produtos com o intuito de dar aos comensais uma experiência o mais fiél possível à original. Parece interessante? 
Desta vez, foi O Victor, um restaurante perto da Póvoa do Lanhoso, onde diz que se serve o melhor bacalhau de Portugal! Não estou a brincar, dizem mesmo! Ou seja, expectativa máxima para esta refeição, ainda que saiba o quão memoráveis costumam ser os jantares do Mesas.
E não podia ter começado melhor, deixem que vos diga. Uns Bolinhos de Bacalhau perfeitos! Maravilhosos! Soberbos! E todos os restantes adjectivos que se possam lembrar para descrever um bolinho de bacalhau perfeito. Fritura fantástica, recheio impecável com o bacalhau a fazer-se notar (ao contrário de muitos exemplares onde a batata é rainha) e acompanhada por uma refrescante e gulosa salada de feijão frade.


O prato menos conseguido foi, para mim, os Rojões à Moda do Minho, com toda a sua tradicionalidade e regionalidade. Ou seja, tripas enfarinhadas, sangue cozido e um enchido do qual não me recordo o nome (talvez bolacho)! Demasiados componentes proteícos no prato sem nada que os ligasse ou que fosse cortando a sua intensidade. Bastaria um acompanhamento para ajudar o prato.


O Bacalhau à Victor é, merecidamente, a estrela da casa. Antes do prato ser servido, o Senhor Victor vem às mesas mostrar as gigantes postas de bacalhau que seriam cozinhadas na brasa para os comensais presentes. Por falar no Senhor Victor, que amor de pessoa, tal como a sua mulher! Sempre disposto a mais uma amável palavra na conversa, a explicar como surgiu o restaurante, o prato, a tradição ou simplesmente um agradecimento pessoal a cada um dos presentes.
Por ser um evento com vários pratos, o bacalhau chega à mesa já desfiado (mas se quiserem ver fotos das postas monstruosas encontram-nas facilmente no TripAdvisor) numa lasca perfeita, com aquele ligeiro salgado extra tão característico, acompanhado por umas batatas à murro, que poderiam estar um pouco mais cozinhadas, umas rodelas de cebola encruadas e bom azeite.


Outro momento icónico n'O Victor é o Leite Creme (e cuja foto é com o meu telemóvel antigo e, portanto, completamente vergonhosa e a não fazer jus à sobremesa), queimado na hora com um ferro aquecido nas brasas! Excelente crosta caramelizada, a estilhaçar com aquele som que facilmente nos faz salivar, para revelar um creme suave e adocicado, mas não demasiado.


Dizem as boas bocas que estamos perante o melhor bacalhau de Portugal, e é bem possível que assim seja. O prémio de casal mais simpático da hotelaria portuguesa ganharam fácil e isso chegou para me fazer querer visitar o seu restaurante na localização original.

O Victor
Póvoa do Lanhoso, Portugal
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 24 de Março 2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Pizzaria Baldracca (Avenida da Liberdade)

21 de Março de 2018, um dia que ficará na memória de muitos como um dos momentos mais marcantes do Stand-Up Comedy em Portugal! O que é que stand-up comedy e pizzas têm em comum? Nada, mas soava-me como um bom início de texto. Não? Não?! Ok! Talvez soasse melhor na minha cabeça...
Há dias em que a comida é totalmente secundária, ainda que possa haver uma preocupação em tentar ter a melhor refeição possível, dentro do contexto existente. E, neste dia, o que mais interessava era o que se ia passar no Cinema São Jorge. Foi neste dia que se reuniram milhares de pessoas numa sala, num evento completamente esgotado, para se rirem à custa do cancro! Sim, leram bem. Este evento foi organizado pelo Tiago Alves, um paciente oncológico que adora stand-up comedy e teve a brilhante ideia de fazer um roast (um conceito de comédia onde várias pessoas se juntam para gozar com alguém). Para tal, juntou alguns dos melhores comediantes nacionais (Diogo Faro - Sensivelmente Idiota, Guilherme Fonseca, Dário Guerreiro - Môce dum Cabreste, Guilherme Duarte - Por Falar Noutra Coisa, Diogo Batáguas, Rita Camarneiro, Diogo Miguel e Carlos Vidal) para gozarem com o seu cancro, num espectáculo de 3 horas de Morrer a Rir! 
Não é uma piada minha, é mesmo o nome que deram ao roast, e não podia ser mais perfeito. De louvar a iniciativa, principalmente por todas as receitas de bilheteira terem revertido para o IPO, a coragem do Tiago, ao encarar desta forma o seu cancro (podem encontrar pela internet fora vários podcasts e entrevistas do mesmo a falar sobre isto), e o formato escolhido, com as características piadas entre comediantes e depois focando no principal interveniente.
Então e as pizzas? Esta ida ao São Jorge foi a desculpa necessária para experimentar as Pizzas da Cantina Baldracca, localizadas na Cafetaria do próprio Cinema. Pizzas bastante finas, mas com o pão bem cozido e a aguentar-se bem à degustação manual (um termo se calhar demasiado finório para dizer que comi a pizza à mão e ela resistiu bem!). 
Combinações simples, sem nunca sentir que existisse um exagero de ingredientes, fizeram das pizzas uma agradável surpresa, principalmente a Vítimas da Tormenta (Molho de Tomate, Mozzarella, Bacon, Cebola e Chilli).



Com ingredientes menos intensos, e que poderia ser compensado por um uso mais generoso dos mesmos, a Roma Cidade Aberta (Molho de Tomate, Mozzarella, Chouriço e Pimento Assado) esteve um nível abaixo da sua antecessora.



Mas existe um grande problema nesta cafetaria, principalmente se estivermos com o tempo algo contado para alguma sessão existente, como era o caso. Aparentemente, apenas têm forno para fazer duas pizzas de cada vez. Num grupo de 10 pessoas, juntando ao facto de não terem multibanco (não percebo isto quando existe uma tendência crescente de andarmos cada vez menos com dinheiro nas carteiras, ideia inclusive explorada pela Nit num artigo - aqui), isto fez com que o jantar se prolongasse mesmo até à hora crítica da sessão. Compensam a falha pela qualidade das pizzas, mas é sem dúvida uma situação que deveria ser revista.

Pizzaria Baldracca
Lisboa, Portugal
Cafetaria do Cinema São Jorge Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 10 €
Data da Visita: 21 de Março 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pérola da Mourisca (Setúbal - Mourisca)

Quando faço a viagem Lisboa/Algarve, ou vice-versa, surge sempre a mesma dúvida... Onde parar para comer qualquer coisa? Sou um fã eterno d'O Cruzamento (aqui) mas isso entra em conflito com o gostar de experimentar novos locais. Fosse o (entretanto encerrado) Hortelã da Ribeira em Alcácer, que tinha uma Sopa de Tomate de bradar ou o afamado pato da Tia Rosa em Melides (que me desiludiu e sobre o qual falei aqui) a verdade é que tento aproveitar estas viagens para conhecer algo que fique perto de uma saída da A2.
No mapa, o Pérola da Mourisca até parecia satisfazer este critério, mas só passado quase 30 minutos em estradas secundárias chegamos ao restaurante. Chego a pensar que é bom que a viagem valha a pena, ainda com a desilusão de Melides em mente. Um pensamento que se acentua quando entro num restaurante quase vazio, mas é domingo à noite e o local é algo remoto, por isso tenho que dar o benefício da dúvida.
Já tinha ouvido falar bem do local, mas sem um foco específico quanto ao tipo de comida. Como estamos numa Cervejaria/Marisqueira a ementa tem diversas secções interessantes mas optámos por pedir vários petiscos.
Começámos com uns surpreendentes Pimentos Recheados com Sapateira. Para quem não gostava de pimentos até há poucos anos, nem é grande fã de marisco, a primeira garfada fez-me arregalar os olhos e atacar avidamente o que restava no prato. Uma pasta bem balanceada, sem perder o sabor característico da sapateira, sobressaía acima da intensidade do pimento.


O prato mais simples, e digno de outro momento de arregalanço ocular (se a expressão não existia, passa a existir!), foram uns belíssimos Ovinhos de Codorniz em cima de pão torrado e com uma surpresa suína pelo meio. Era capaz de comer 20 daqueles ovinhos!


Chegaram também à mesa uma Farinheira com Ovos e uns Espargos com Ovos, assim mesmo de nome trocado, pelo rácio encontrado no prato. Sabores fortes (e bons) em ambos os extremos do prato, pecando apenas pela textura dos ovos, secos demais para o meu gosto.


Boas Puntillitas, de bom tamanho, fritura correcta, sem excesso de óleo, mas faltando-lhes um pouco de sal na farinha que lhes servia de casaco. Ainda assim, um prato que nunca me escapa quando vejo na ementa.


Um dos pratos mais conhecidos desta casa, e recomendação do staff (que esteve impecável durante toda a refeição), é o Camarão no Forno. Perfeitamente justificável pelo sabor do prato, quase a fazer lembrar camarões salteados com alho, mas onde a logística para os comer não é a melhor. Não saem facilmente da casca e o facto de estarem divididos ao meio não dá jeito nem para comer à mão, nem para comer com talheres! Já para não falar na estranha tentativa da habitual chupadela da cabeça (não há forma menos pornográfica de descrever a acção, desculpem os mais sensíveis).


Queríamos terminar com uma nota doce, recaindo a escolha sobre o Folhado de Queijo Fresco com Doce de Figo. E, deixem-me que vos diga, é uma verdadeira maravilha! Não me perguntem como, mas funciona na perfeição. É leve, é doce sem o ser excessivamente mas não deixa de despontar em nós uma pecaminosa gula.


Apesar do longo desvio, achei que valeu a pena! O atendimento foi descontraído e prestável (o facto do restaurante estar vazio também ajudou) e a comida não desiludiu.

Pérola da Mourisca
Setúbal, Portugal
Pérola da Mourisca Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 18 de Março 2018

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Casa do Polvo (Santa Luzia)

Bem perto de Tavira, uma das minhas cidades de eleição no país, fica a Capital do Polvo, Santa Luzia. Aquele tipo de freguesia que é conhecida por uma especialidade e, como tal, quase todos os seus restaurantes apregoam ter o melhor polvo das redondezas, adaptado em 30 mil receitas portuguesas e não só!
Não sei efectivamente qual será o melhor, são demasiados para experimentar, mas já há muito que ouvia falar da Casa do Polvo e foi a minha primeira opção para um almoço tardio. Casa ainda cheia perto das 14h de um domingo, com uma ementa virada para o nosso octópode favorito (como é óbvio) e o serviço a cumprir os mínimos olímpicos, sem grande simpatia, como quem quer terminar o serviço de almoço o mais rápido possível.
Começámos pelos Panadinhos de Polvo, pedaços de tentáculos de polvo irregularmente panados, sem uma camada uniforme de pão ralado sobre os mesmos, e com um défice de sal enorme. Felizmente a falta de sal conseguiu ser ligeiramente mitigada com o limão, a maionese de alho e o molho picante que acompanhavam os panadinhos, mas deveriam ser capazes de brilhar mesmo sem os complementos.



Algo melhor o Polvo de Fricassé com um molho cremoso que envolvia tudo, mas sem aquelas críticas notas cítricas do limão tradicionais. O limão vinha no prato, para colocarmos a nosso gosto, mas isto acaba por fugir à ideia que temos do fricassé. Isso e o uso de pimentos, mas até gostei do toque que dava ao prato.



E o momento estranho da refeição foi quando uma Feijoada de Polvo com Malagueta e Coentros chegou à mesa e sabia... a nada! Há muito tempo que não provava um prato tão insípido, principalmente quando toda a sua premissa invoca sabor. Feijão, polvo, malagueta, coentros e até bacon se encontrava no prato, mas sabor nem vê-lo. Tal como o picante expectável da malagueta... Nem com a adição de picante o prato melhorou por aí além. Nem acho que tenha sido um erro de casting, porque a ideia por trás do prato é simples e tem tudo para correr bem. Faltou só mão na cozinha.



Decidimos terminar com algo doce mas regional e a escolha recaiu sobre a Tarte de Alfarroba com Frutos Silvestres. Excelente sabor, boa combinação com os frutos silvestres, mas a tarte a apresentar-se um pouco mais densa do que é desejável.



Abandonamos o restaurante a pensar que podia (e devia) ter sido muito melhor. Não só pelo preço mas porque temos clara noção que faltava apenas amor e carinho para os pratos terem resultado na perfeição. E não há cozinha decente sem algum amor e carinho...

Casa do Polvo
Tavira, Portugal
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 18 de Março 2018

terça-feira, 31 de julho de 2018

SUD Lisboa (Belém)

Fez recentemente 1 ano que o SUD Lisboa abriu as suas portas com um conceito completamente inovador. Rapidamente se tornou um dos sítios "da moda" da cidade de Lisboa, mas a verdade é que nunca me tinha suscitado curiosidade para lá ir fazer uma refeição. Aliás, sempre tinha olhado para o SUD mais como uma opção para ir beber um copo (tem carta de cocktails bastante apelativa) antes de jantar, ou depois (como fiz depois da minha visita ao JNcQUOI - aqui), do que lá fazer uma refeição. Os preços praticados e o facto de ter tido feedback menos positivo também não ajudavam, por muito que o espaço e localização sejam algo únicos.


Até que surgiu um convite para lá ir experimentar alguns pratos da nova carta (que está ainda no activo, podendo experimentar a maior parte destes pratos, mesmo que a visita tenha ocorrido há uns meses) e, para mim, tirar as teimas quanto ao que o SUD Lisboa vale na cena gastronómica lisboeta. Será mais um restaurante sobrevalorizado, ou conseguirá conquistar fãs lisboetas o suficientes para o tornar relevante?
O primeiro impacto que temos é o espaço. Muito bom, com um ar sofisticado, seja no piso de baixo ou no de cima (que tem uma ementa diferente), mas sem ser demasiado impessoal ou capaz de deixar desconfortável alguém de t-shirt e calções de ganga. Mais complicado é avaliar o serviço, visto que tendo sido convidado para lá ir, tenho perfeita noção de que houve outro cuidado neste aspecto. Ainda assim, interagi com o chef de sala e todas as perguntas que fiz, fosse sobre prato, produto ou outros eram respondidas com prontidão e conhecimento.
Iniciámos assim a refeição com La Tartare di Tonno, um refrescante e surpreendente tártaro de atum com morango (aos pedaços e numa espécie de gaspacho). Se a combinação em si é irreverente, mas mostrando no palato que acaba por fazer sentido e conjugar na perfeição, adorei o uso da salicórnia e aquilo que trouxe ao prato.


A Burrata di Andria é uma das entradas com mais saída do restaurante, e uma perdição para os amantes deste tipo de queijo. A sua generosa dimensão (300gr) torna-o uma entrada perfeita para partilhar e a salada de tomate, que lhe serve de cama, torna-o extremamente refrescante. O que faltava para ser uma Salada Caprese seria uma componente verde, normalmente à base de manjericão, mas aqui o twist SUD colocou um pesto de rúcula no fundo do prato.


O SUD Lisboa apresenta uma ementa claramente italiana, ainda que não se restrinja (felizmente) a massas e pizzas. A última entrada experimentada foi um clássico italiana, o Fritto Misto, aqui apelidado Fritturina Mista di Pesce. Excelente fritura nos pedaços de camarão, lulas e bacalhau, não deixando as proteínas excessivamente cozinhadas e ainda bem ajudadas por uma boa maionese de iogurte e alho.


A maior parte do mundo pensa que a cozinha italiana se resume a Pizzas, Massas e pouco mais. Existe alguma falta de conhecimento neste aspecto mas o SUD preocupa-se em mostrar alguns pratos menos conhecidos do grande público, como é o caso deste Spigola i Caponatina, um filete de robalo corado servido com beringela (daí a caponata, tradicionalmente um refogado de beringela, tomate e cebola) e um puré de feijão branco. Peixe no ponto correcto, puré cremoso, sem qualquer grumo e bastante saboroso, ajudada pela caponata que traz alguma acidez ao prato e ajuda a que o palato não se canse.


O Risotto al Funghi vem numa textura perfeita, com um ponto de cozedura do arroz do mesmo nível mas pareceu-me faltar-lhe um pouco mais de sabor, não sei se no caldo usado se na finalização do prato e quantidade de parmesão utilizada (sou um fã de muito parmesão!). De destacar, ainda assim, a variedade de cogumelos no prato, com Porcini, Pleurotus Eryngii (ou Cogumelos do Cardo), Canterelles e ainda um pouco de trufa para dar o ar de sua graça.


Mas, para mim, o melhor prato da noite foi o Tagliati di Costata Senza Osso (um prato que já não se encontra na ementa, apesar de haver um muito parecido, a Tagliata di Contrafiletto), que é como quem diz um Ribeye Black Angus maturado durante 60 dias. Carne de uma qualidade exímia, perfeitamente cozinhada, apenas a sofrer um pouco no que ao empratamento diz respeito. Pareciam querer esconder a estrela do prato debaixo de uma montanha de vegetais. Não que estivessem maus, pelo contrário, mas este era aquele tipo de pratos em que facilmente dispensava acompanhamento.


No campo das sobremesas, o Le Strudel del SUD (outro prato que entretanto parece já não estar na carta) é uma sobremesa segura mas que não surpreende. Tudo com uma execução correcta e os sabores expectáveis de um bom strudel... mas só isso.


Também o SUD Tiramisù não surpreendeu. Um bom exemplar, bastante sabor a mascarpone, cremoso, com as camadas típicas e até com umas bolachas ao lado para dar um pouco mais de textura mas a ficar atrás do maravilhoso tiramisù do Pátio Antico (aqui).


A melhor sobremesa da noite foi a Panna Cotta com os seus sabores tropicais a renovarem-se a cada colherada, graças à utilização de diferentes frutos. Também texturalmente a sobremesa estava fantástica, com a panna cotta a desfazer-se na boca, a misturar-se perfeitamente com a textura das diferentes frutas e ainda com a crocante manga desidratada.


É fácil gostar-se do SUD Lisboa. O ambiente, a decoração, a localização... simplesmente fantásticos. Felizmente a comida acompanha e revelou-se uma boa surpresa. Os preços são certamente elevados, mas dado todo o contexto do local e qualidade da comida, não estão completamente desajustados. Até porque conseguimos fazer uma refeição por menos de 30€, se optarmos pelas pizzas, por exemplo.

SUD Lisboa
Belém, Portugal
SUD Lisboa Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 50 €
Data da Visita: 15 de Março 2018

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Germano (Marvila)

Nós, portugueses, somos um povo que gosta de se reunir à volta da mesa. Passamos horas à volta de uma mesa bem recheada, entre conversas, gargalhadas e histórias. Estamos até, muitas vezes, a comer e a falar de refeições passadas ou futuras! É por este tipo de coisa que eu considero a comida um dos maiores factores que mais une pessoas, seja em que parte do mundo for.
É por isso que vejo com alguma estranheza atitudes de desconfiança para pessoas que se sentem nas mesas ou nosso lado. E digo isto, seja que tipo de restaurante for, ainda que perceba que a probabilidade de ocorrência possa ser inversamente proporcional ao preço final da refeição.
Porquê este discurso todo? Porque acho que a comida tem mais piada quando partilhamos essa experiência com alguém, conhecido ou desconhecido. E porque me aconteceu algo deste género no Germano, um pequeno restaurante no Braço de Prata, que originou uma noite altamente improvável mas bastante memorável.
Ao chegarmos ao restaurante acabamos por nos assustar um pouco com a quantidade de pessoas que está cá fora à espera. Não existem turistas aqui, são mesmo pessoas que moram naquele bairro ou lisboetas que ali de propósito se deslocam, para experimentar os petiscos da Dona Graça.
Lá nos sentamos, damos uma olhadela rápida pela ementa e pedimos o que nos parece melhor, numa ementa simples, curta e concisa. Estamos no registo dos petiscos, tudo parece tradicional, portanto é deixar-nos levar pelos apetites e vontades da hora. Estamos nas mãos da D. Graça, estamos em boas mãos.
As Amêijoas à Bulhão Pato são as primeiras a chegar à mesa e rapidamente nos apercebemos do erro que foi não pedir logo um cesto de pão torrado. Boas amêijoas com um molho apurado e a pedir para a travessa ser limpa até à última gota. Óptima mão no tempero, algo que se revela uma constante nos diversos pratos experimentados.


As Caracoletas Assadas são algo surpreendentes pois fogem ao registo a que estou habituado. Não há cá molho de manteiga, mostarda ou picante! São assadas com um intenso molho de alho e limão, levando-nos mais uma vez a puxar do pão torrado e absorver o máximo possível do que se encontra na travessa. E é aqui que voltamos ao início deste texto. Chegam as caracoletas e as duas pessoas da mesa ao lado comentam-nas, ao que prontamente nos oferecemos para que provem da nossa travessa. Conversa puxa conversa, não só acabamos a provar os caracóis e os bifes que tinham pedido, como às tantas percebemos que não eramos assim tão desconhecidos. 


No meio de toda esta conversa, chega ainda o Pica-Pau de Vaca e as Batatas Fritas à mesa mas fogem do registo fotográfico. Pica-Pau a manter a consistência ao nível da molhanga dos 2 pratos anteriores mas achei que a carne em si poderia ter um pouco mais de sal. Já as batatas fritas caseiras serviram o propósito de acompanhar a carne mas poderias estar mais fritas.
Não estava com vontade de sobremesa, mas chegou à mesa (que agora já se tinha tornado numa mesa de 4 em vez de duas de 2) uma Mousse de Chocolate, que me disseram estar boa, e um Cheesecake de Morango, considerado fraco.
Gosto de restaurantes assim. Restaurantes honestos, comida simples, a preços justos. Tascas, na verdadeira aceitação da palavra e não nas suas reinterpretações modernas, onde o serviço é sempre familiar, a casa está cheia de clientes habituais e onde saímos a querer fazer parte desse selecto grupo de regulares.

Germano
Lisboa, Portugal
Cervejaria Germano Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
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Preço Médio: < 20 €
Data da Visita: 28 de Julho 2018