quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Noélia (Cabanas de Tavira)

Este é um dos restaurantes que menos apresentações necessita, certo? Todos já devemos ter, algures no tempo, ouvido falar da famosa Noélia, que gere um restaurante perto de Tavira, que origina verdadeiras romarias, que trabalha os produtos locais como poucos, que origina orgasmos gastronómicos e que é o melhor restaurante do mundo (!!), segundo o Miguel Esteves Cardoso (aqui).
Pois é, todos os anos saem verdadeiras odes de amor à Noélia e não é por menos. A sua comida, principalmente quando nos focamos nas Sugestões do Dia, é refrescante, é inovadora e, principalmente, é plena de sabor. 
Isto para não falar no amor de pessoa que a mesma é. Tive oportunidade de falar um pouco com ela no final do jantar do Mesas Bohemias e fiquei rendido não só à sua cozinha como à sua pessoa. O carinho com que falava dos "seus míudos", que com ela partilham a cozinha, mede-se no tom de voz.
O único apontamento que tenho a fazer é o facto de não me terem permitido fazer um dos menus de degustação que, na altura, ainda se encontravam no menu (disseram-me que seria retirado entretanto). Queria deixar-me ficar nas mãos da Noélia, pois ela sabe levar-nos na sua cozinha tão familiar e, ao mesmo tempo, tão inovadora.
No último ano fiz 3 refeições na Noélia (duas no seu restaurante, em Cabanas de Tavira, e uma no Mesas Bohemias, em Lisboa) e, ainda que nem todos os pratos tenham deslumbrado, saio sempre com a impressão que quero voltar rapidamente e saber o que de novo a Noélia vai cozinhar. Mas não é só nas inovações que a Noélia se destaca, pois também no tradicional se destaca. Nem tudo do que aqui consta foi perfeito mas, independentemente disso, é daqueles restaurantes obrigatórios e que valem a viagem propositada.
Pudesse eu e estaria lá mensalmente, pois ela é uma mulher que trabalha o que o mar e a terra lhe dão, funcionando até com algumas micro-estações. 
Não vou descrever os pratos. Não vale a pena. Nunca iriam fazer jus ao sabor que tinham. Quero apenas deixar-vos com uma nota. As imagens que vão ver a seguir podem causar elevadas doses de saliva, não sendo recomendadas a quem estiver com muita fome.

Ceviche de Dourada do mar
Canja de Amêijoas
Polvo Frito com Batata Doce
Filetes de Peixe-Galo Frito com Arroz de Coentros
Raia Alhada
Arroz de Ostras "Moinho dos Ilhéus" com espumante Sidónio de Sousa
Arroz Negro de Lulas em 3 Texturas
Mousse de Limão Merengada
Mousse de Chocolate
Bolo de Laranja, Amêndoa e Gila
Polvo Trapalhão com Batata Doce
Açorda de Galinha Serrana
Tarte de Alfarroba e Pudim de Laranja do Algarve com Amêndoa
Pil-Pil de Línguas de Bacalhau
Arroz de Limão com Garoupa e Amêijoas
Tarte de Alfarroba, Amêndoa e Gila
Tapas de Muxama de Atum
Único problema? Estar cheio nesta altura de Verão, seja a que hora do dia for! Tentem reservar ou, conselho pessoal, vão fora da altura de férias para poderem aproveitar uma refeição mais tranquila.

Noélia
Tavira, Portugal
Preço Médio: < 30 €
Data da Última Visita: 17 de Março 2018

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Altântico by Miguel Laffan (Estoril)

O nome de Miguel Laffan pode parecer estranho aos mais distraídos, mas este tem sido um dos chefs portugueses mais reconhecidos na cena gastronómica portuguesa recente, muito devido ao seu trabalho no L'And Vineyards, em Montemor-o-Novo, onde ganhou uma estrela Michelin, perdeu-a, e depois conseguiu recuperá-la.
Entretanto parece que têm sido uns últimos tempos ocupados para o chef, que abriu recentemente O Ato, em Lisboa, e deu nova vida ao Atlântico, o restaurante do Hotel Intercontinental Estoril. Restaurante esse do qual já tinha ouvido falar bem nos últimos anos mas confesso que a chegada de Miguel Laffan, que estava presente nesse dia, me suscitou ainda mais curiosidade. Dada a posição que tem, nada como aproveitar um final de tarde veranil para ir conhecer a sua fantástica esplanada e deslumbrante vista.
Excelente serviço ao longo de toda a refeição, perfeitamente encaixado no posicionamente que o restaurante pretende atingir, que mal nos sentou sugeriu uns refrescantes cocktails para iniciar a refeição. Sim, eu sei que estão a vender e a impingir-nos bebidas que poderiam ser necessárias, mas num dos dias mais quentes do ano, um cocktail fresco enquanto admirava o esplendoroso mar que banha a Linha de Cascais soube-me maravilhosamente.


Bom couvert (que infelizmente se escapou ao registo fotográfico), com 3 tipos de pão à escolha, com especial destaque para o pão integral, azeite transmontano e uma manteiga francesa (não perguntei qual a diferença entre uma manteiga francesa e qualquer outra) simples mas extremamente viciante. Pão e manteiga, um casamento perfeito.
Chegou também uma oferta da casa, no formato de um clássico Pastel de Bacalhau de excelente fritura, boa proporção entre batata e fiel amigo mas onde senti faltar um pouco de sal.


A cozinha do Atlântico é, logicamente, muito virada para os produtos marítimos, o que fazia um match perfeito com os nossos apetites nesse dia. As Vieiras, Cogumelos Selvagens e Sabayon Trufado entusiasmaram da primeira à última garfada. 3 camadas distintas, cada uma com um sabor muito próprio mas que se complementavam na perfeição. Em baixo, o Sabayon trufado, a lembrar um brás, com vieiras, cogumelos e óleo de trufa. Não sou um fã do mesmo, pela facilidade com que se torna um elemento dominador em qualquer prato em que toque. Aqui estava mesmo nesse limiar, mas revelou-se acrescentar uma camada de sabor à existente, sem abafar completamente os restantes. Óptima telha de tinta de choco, a dar um ligeiro salgado ao conjunto e, por cima, uma vieira perfeitamente cozinhada com espuma de amêndoa (o elemento menos diferenciador em todo o prato).
Único problema? Ter acabado!


Chegamos aos pratos principais e mantemos o registo marinho, com um aparentemente simples (mas fantástico) Atum dos Açores com Molho de Soja e Gengibre. O atum braseado, num perfeito tom avermelhado mas que eu, pessoalmente, até cozinharia menos, a ligar muito bem com um molho entre o salgado e o ácido. Acompanhou com uns legumes salteados mas que mais pareciam cozidos a vapor. Nada contra, pois apresentavam um sabor bastante natural, em particular as ervilhas quebradas.


Se não tinha nada contra o acompanhamento do atum, não deveria ter nada contra o acompanhamento do Pregado com Molho de Caril e Manjericão, pois era o mesmo. Aqui a questão prendeu-se com a escolha de talheres para o efeito, visto que os legumes estavam algo encruados, o que não dá jeito nenhum quando se tem uma faca de peixe na mão. Tirando isso, prato bastante aromático, peixe cozinhado na perfeição e o molho a conjugar-se lindamente, sem ofuscar o sabor do peixe.


Acabámos a refeição em beleza, com um Crème Brûlée de Maracujá onde a doçura contrabalançava bem com a acidez do maracujá e tudo era coberto por uma fina e estaladiça crosta. Os elementos externos, maioritariamente doces, ajudaram a dar novas notas ao palato tanto pelo exotismo dos frutos tropicais como bela doçura excessiva do suspiro.


Uma óptima refeição, num restaurante bonito, com bom serviço, uma vista de outro mundo e excelente comida. Fica a eterna questão do valor final da conta, quando os pratos principais rondam os 30€, mas é difícil encontrar contextos com esta comida, espaço e vista e pagar meia dúzia de tostões.
Mas, como bónus, o restaurante tem Zomato Gold! O que significa que, com uma refeição no Atlântico, conseguimos poupar o valor equivalente a uma subscrição de 12 meses, se usarem o código DEVANE (que vos dá 25% de desconto)! Estão à espera de quê?

Atlântico
Estoril, Portugal
Atlântico - Bar e Restaurante Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 60 €
Data da Visita: 2 de Agosto 2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Pereira (Cascais)

Algumas pessoas que não me conhecem, mas sabem que tenho um blog onde mando umas postas de pescada (às quais elegantemente chamei devaneios) sobre restaurantes, podem pensar que só frequento restaurantes da moda, de comida étnica, caros ou gourmet (que traduzem para "caro e passamos fome", pela desvirtualização que a expressão sofreu nos anos mais recentes e que me causa uma certa irritação quando mal usada, mas continuarei a tentar explicar às pessoas que isso é uma ideia completamente errada).
Isto não é inteiramente falso, confesso, mas também anda longe da verdade absoluta. Gosto de equilibrar as experiências, provar coisas novas de espectros variados e, principalmente, experimentar restaurantes novos, sejam eles de que tipo forem, desde que se coma bem! É até mais recorrente, nos dias de hoje, eu ter apetites de boa comida portuguesa. Daqueles restaurantes, que carinhosamente apelidamos tascos, onde nos servimos de generosas porções directamente do tacho de metal, de comida saborosa mas pouco instagramável (tentem tirar uma foto bonita a uma cabidela, feijoada, favas ou coisas do género, desafio-vos!). Disse-o no outro dia no Instagram (aqui - para quem quer saber por onde ando, não vá acontecer outro hiato de escrita, sigam todas as novidades no Instagram) e não me importo de o repetir. Adoro tascos!
Por adorar tascos, a sua comida honesta, o seu serviço familiar e os seus preços (tipicamente) baixos é que considerei o Pereira o sítio ideal para matar este apetite. Decidimos iniciar as hostilidades com uns belíssimos Carapauzinhos Fritos com Açorda, ainda que pudessem ser de dimensões mais criminosas. Ainda assim, fritos o suficiente para se comer da cauda à cabeça, não deixando literalmente nada como amostra. Boa açorda para acompanhar, bem puxada ao alho, mas talvez um pouco líquida demais.


Quando almocei no Prado, estava a comentar com um amigo que trabalha na área o quanto gosto de comida portuguesa de tacho, e como um dos pratos que experimentámos me enchia todas as medidas (falei sobre isso aqui). Ainda hoje salivo só de pensar naquele estufado de Barrosã com Ovo e Creme de Couve-Flor! E era essa comida de tacho que me apetecia e me fez ir até ao Pereira. Mais precisamente o Arroz de Cabidela, do qual já tinha ouvido falar maravilhosamente. E que maravilhoso estava, de facto. 
Dose generosa, com um rácio desequilibrado entre arroz e galinha (para o lado do arroz, e ainda bem!) e aquela gulosice vinagreira que considero essencial em qualquer cabidela. Porquê o facto de gostar da maior existência de arroz face à proteína? Porque sou um viciado em arroz e não me importo nada de encher o prato (pela terceira vez) e só ter aqueles deliciosos bagos, perfeitamente cozinhados e plenos de sabor.


Uma refeição muito boa, que me renova a paixão pela gastronomia portuguesa. Por pratos destes é que continuo convencido que temos a melhor comida do mundo. O que me apaixona é descobrir mais locais, por todo o país, que honrem a gastronomia portuguesa e que a ajudem a divulgar pelo mundo fora.

Pereira
Cascais, Portugal
O Pereira Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 20 €
Data da Visita: 17 de Abril 2018

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

C.O.W. - Beef & Cocktails (Santos)

Se há meia dúzia de anos me perguntassem onde se poderia comer carne maturada em Lisboa, teria sérias dificuldades em responder. Mas o paradigma felizmente mudou e, com a desmistificação do que é carne maturada, começaram a surgir steakhouses, com a dita cuja, um pouco por toda a cidade e para (quase) todos os bolsos.
Há cerca de 2 anos abriu, em Santos, o C.O.W. Beef & Cocktails que, como o nome indica, tem como especialidade a carne bovina, não só em cortes como também picada. Por mera curiosidade, em Santos, nuns meros 500 metros, existem cerca de 3 casas a apregoar carne como a sua especialidade! Só para o caso de podermos achar que não há oferta suficiente...
O início não foi o melhor com o Couvert a parecer escasso, principalmente quando cobram 2,5€ por 2 fatias de bolo do caco de beterraba e 3 fatias de bolo do caco tradicional, que nem sequer eram de grande qualidade. Safou-se a tapenade e a manteiga de ervas.


Há uma coisa que os restaurantes devem ter em conta quando escrevem a sua ementa. O prato deveria corresponder à imagem mental que os clientes dele criam na sua cabeça (excepção feita a quando este efeito é propositado). Pedimos os Rolinhos de Queijo de Cabra e Presunto, imaginando uns rolos de presunto com queijo de cabra lá dentro, ou algo do género. O que nos chegou à mesa foi uma tábua com uns gulosos rolinhos de massa filo recheados com queijo de cabra e salpicados com mel (a lembrar a entrada turca Sigara Börek) e, ao lado, algumas fatias de um presunto que não era excepcional. Acabámos por comer a entrada como se de duas separadas se tratassem, já que o presunto não era intenso o suficiente para contrastar com o queijo de cabra e o mel.


Mas a estrela principal, e responsável por toda e qualquer expectativa face ao restaurante, não desiludiu. Optámos por um dos cortes especiais, nomeadamente a Vazia Rubia Galega, que chegou à mesa perfeita. Sim, não é uma das 15 raças bovinas autóctones, e temos carne maravilhosa que muitos desconhecem no nosso país, mas esta Rubia Galega é também qualquer coisa de fantástica, principalmente quando assim cozinhada, simples, sem grandes maquilhagens e deixando a carne falar por si só.


Acompanhámos com umas boas Batatas Doce Fritas e um caldoso Arroz de Cogumelos e Espargos que precisava de mais sal e de um caldo mais intenso, revelando-se algo sensaborão. O detalhe de ter tábuas (já é um cliché neste tipo de restaurantes) e colocar o arroz caldoso na mesma fez-me realmente questionar a opção ao nível do serviço, mas tudo correu bem e nenhum molho se derramou sobre a mesa.



Entre o facto de estarmos já algo cheios e a hora de início de uma das noites de comédia do Xafarix Comedy Club (que irão voltar em Setembro!), decidimos não arriscar na sobremesa.
Ainda que tenha uns pormenores a melhorar, aquilo que fica é um restaurante com excelente carne e um local a considerar sempre, entre os muitos parecidos que têm aparecido e que continuarão a aparecer.

C.O.W. - Beef & Cocktails
Santos, Portugal
C.O.W - Beef & Cocktails Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
TheFork
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 12 de Abril 2018

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Victor (Póvoa do Lanhoso) @ Mesas Bohemias

Acho que já expliquei o conceito do Mesas Bohemias (aqui) vezes suficientes para quem me segue há algum tempo já conhecer e perceber o conceito. Para quem não conhece, farei um breve resumo. O Mesas Bohemias tem o intuito de trazer o melhor da gastronomia portuguesa a Lisboa e ao Porto, trazendo restaurantes e respectivos produtos com o intuito de dar aos comensais uma experiência o mais fiél possível à original. Parece interessante? 
Desta vez, foi O Victor, um restaurante perto da Póvoa do Lanhoso, onde diz que se serve o melhor bacalhau de Portugal! Não estou a brincar, dizem mesmo! Ou seja, expectativa máxima para esta refeição, ainda que saiba o quão memoráveis costumam ser os jantares do Mesas.
E não podia ter começado melhor, deixem que vos diga. Uns Bolinhos de Bacalhau perfeitos! Maravilhosos! Soberbos! E todos os restantes adjectivos que se possam lembrar para descrever um bolinho de bacalhau perfeito. Fritura fantástica, recheio impecável com o bacalhau a fazer-se notar (ao contrário de muitos exemplares onde a batata é rainha) e acompanhada por uma refrescante e gulosa salada de feijão frade.


O prato menos conseguido foi, para mim, os Rojões à Moda do Minho, com toda a sua tradicionalidade e regionalidade. Ou seja, tripas enfarinhadas, sangue cozido e um enchido do qual não me recordo o nome (talvez bolacho)! Demasiados componentes proteícos no prato sem nada que os ligasse ou que fosse cortando a sua intensidade. Bastaria um acompanhamento para ajudar o prato.


O Bacalhau à Victor é, merecidamente, a estrela da casa. Antes do prato ser servido, o Senhor Victor vem às mesas mostrar as gigantes postas de bacalhau que seriam cozinhadas na brasa para os comensais presentes. Por falar no Senhor Victor, que amor de pessoa, tal como a sua mulher! Sempre disposto a mais uma amável palavra na conversa, a explicar como surgiu o restaurante, o prato, a tradição ou simplesmente um agradecimento pessoal a cada um dos presentes.
Por ser um evento com vários pratos, o bacalhau chega à mesa já desfiado (mas se quiserem ver fotos das postas monstruosas encontram-nas facilmente no TripAdvisor) numa lasca perfeita, com aquele ligeiro salgado extra tão característico, acompanhado por umas batatas à murro, que poderiam estar um pouco mais cozinhadas, umas rodelas de cebola encruadas e bom azeite.


Outro momento icónico n'O Victor é o Leite Creme (e cuja foto é com o meu telemóvel antigo e, portanto, completamente vergonhosa e a não fazer jus à sobremesa), queimado na hora com um ferro aquecido nas brasas! Excelente crosta caramelizada, a estilhaçar com aquele som que facilmente nos faz salivar, para revelar um creme suave e adocicado, mas não demasiado.


Dizem as boas bocas que estamos perante o melhor bacalhau de Portugal, e é bem possível que assim seja. O prémio de casal mais simpático da hotelaria portuguesa ganharam fácil e isso chegou para me fazer querer visitar o seu restaurante na localização original.

O Victor
Póvoa do Lanhoso, Portugal
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 24 de Março 2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Pizzaria Baldracca (Avenida da Liberdade)

21 de Março de 2018, um dia que ficará na memória de muitos como um dos momentos mais marcantes do Stand-Up Comedy em Portugal! O que é que stand-up comedy e pizzas têm em comum? Nada, mas soava-me como um bom início de texto. Não? Não?! Ok! Talvez soasse melhor na minha cabeça...
Há dias em que a comida é totalmente secundária, ainda que possa haver uma preocupação em tentar ter a melhor refeição possível, dentro do contexto existente. E, neste dia, o que mais interessava era o que se ia passar no Cinema São Jorge. Foi neste dia que se reuniram milhares de pessoas numa sala, num evento completamente esgotado, para se rirem à custa do cancro! Sim, leram bem. Este evento foi organizado pelo Tiago Alves, um paciente oncológico que adora stand-up comedy e teve a brilhante ideia de fazer um roast (um conceito de comédia onde várias pessoas se juntam para gozar com alguém). Para tal, juntou alguns dos melhores comediantes nacionais (Diogo Faro - Sensivelmente Idiota, Guilherme Fonseca, Dário Guerreiro - Môce dum Cabreste, Guilherme Duarte - Por Falar Noutra Coisa, Diogo Batáguas, Rita Camarneiro, Diogo Miguel e Carlos Vidal) para gozarem com o seu cancro, num espectáculo de 3 horas de Morrer a Rir! 
Não é uma piada minha, é mesmo o nome que deram ao roast, e não podia ser mais perfeito. De louvar a iniciativa, principalmente por todas as receitas de bilheteira terem revertido para o IPO, a coragem do Tiago, ao encarar desta forma o seu cancro (podem encontrar pela internet fora vários podcasts e entrevistas do mesmo a falar sobre isto), e o formato escolhido, com as características piadas entre comediantes e depois focando no principal interveniente.
Então e as pizzas? Esta ida ao São Jorge foi a desculpa necessária para experimentar as Pizzas da Cantina Baldracca, localizadas na Cafetaria do próprio Cinema. Pizzas bastante finas, mas com o pão bem cozido e a aguentar-se bem à degustação manual (um termo se calhar demasiado finório para dizer que comi a pizza à mão e ela resistiu bem!). 
Combinações simples, sem nunca sentir que existisse um exagero de ingredientes, fizeram das pizzas uma agradável surpresa, principalmente a Vítimas da Tormenta (Molho de Tomate, Mozzarella, Bacon, Cebola e Chilli).



Com ingredientes menos intensos, e que poderia ser compensado por um uso mais generoso dos mesmos, a Roma Cidade Aberta (Molho de Tomate, Mozzarella, Chouriço e Pimento Assado) esteve um nível abaixo da sua antecessora.



Mas existe um grande problema nesta cafetaria, principalmente se estivermos com o tempo algo contado para alguma sessão existente, como era o caso. Aparentemente, apenas têm forno para fazer duas pizzas de cada vez. Num grupo de 10 pessoas, juntando ao facto de não terem multibanco (não percebo isto quando existe uma tendência crescente de andarmos cada vez menos com dinheiro nas carteiras, ideia inclusive explorada pela Nit num artigo - aqui), isto fez com que o jantar se prolongasse mesmo até à hora crítica da sessão. Compensam a falha pela qualidade das pizzas, mas é sem dúvida uma situação que deveria ser revista.

Pizzaria Baldracca
Lisboa, Portugal
Cafetaria do Cinema São Jorge Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 10 €
Data da Visita: 21 de Março 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pérola da Mourisca (Setúbal - Mourisca)

Quando faço a viagem Lisboa/Algarve, ou vice-versa, surge sempre a mesma dúvida... Onde parar para comer qualquer coisa? Sou um fã eterno d'O Cruzamento (aqui) mas isso entra em conflito com o gostar de experimentar novos locais. Fosse o (entretanto encerrado) Hortelã da Ribeira em Alcácer, que tinha uma Sopa de Tomate de bradar ou o afamado pato da Tia Rosa em Melides (que me desiludiu e sobre o qual falei aqui) a verdade é que tento aproveitar estas viagens para conhecer algo que fique perto de uma saída da A2.
No mapa, o Pérola da Mourisca até parecia satisfazer este critério, mas só passado quase 30 minutos em estradas secundárias chegamos ao restaurante. Chego a pensar que é bom que a viagem valha a pena, ainda com a desilusão de Melides em mente. Um pensamento que se acentua quando entro num restaurante quase vazio, mas é domingo à noite e o local é algo remoto, por isso tenho que dar o benefício da dúvida.
Já tinha ouvido falar bem do local, mas sem um foco específico quanto ao tipo de comida. Como estamos numa Cervejaria/Marisqueira a ementa tem diversas secções interessantes mas optámos por pedir vários petiscos.
Começámos com uns surpreendentes Pimentos Recheados com Sapateira. Para quem não gostava de pimentos até há poucos anos, nem é grande fã de marisco, a primeira garfada fez-me arregalar os olhos e atacar avidamente o que restava no prato. Uma pasta bem balanceada, sem perder o sabor característico da sapateira, sobressaía acima da intensidade do pimento.


O prato mais simples, e digno de outro momento de arregalanço ocular (se a expressão não existia, passa a existir!), foram uns belíssimos Ovinhos de Codorniz em cima de pão torrado e com uma surpresa suína pelo meio. Era capaz de comer 20 daqueles ovinhos!


Chegaram também à mesa uma Farinheira com Ovos e uns Espargos com Ovos, assim mesmo de nome trocado, pelo rácio encontrado no prato. Sabores fortes (e bons) em ambos os extremos do prato, pecando apenas pela textura dos ovos, secos demais para o meu gosto.


Boas Puntillitas, de bom tamanho, fritura correcta, sem excesso de óleo, mas faltando-lhes um pouco de sal na farinha que lhes servia de casaco. Ainda assim, um prato que nunca me escapa quando vejo na ementa.


Um dos pratos mais conhecidos desta casa, e recomendação do staff (que esteve impecável durante toda a refeição), é o Camarão no Forno. Perfeitamente justificável pelo sabor do prato, quase a fazer lembrar camarões salteados com alho, mas onde a logística para os comer não é a melhor. Não saem facilmente da casca e o facto de estarem divididos ao meio não dá jeito nem para comer à mão, nem para comer com talheres! Já para não falar na estranha tentativa da habitual chupadela da cabeça (não há forma menos pornográfica de descrever a acção, desculpem os mais sensíveis).


Queríamos terminar com uma nota doce, recaindo a escolha sobre o Folhado de Queijo Fresco com Doce de Figo. E, deixem-me que vos diga, é uma verdadeira maravilha! Não me perguntem como, mas funciona na perfeição. É leve, é doce sem o ser excessivamente mas não deixa de despontar em nós uma pecaminosa gula.


Apesar do longo desvio, achei que valeu a pena! O atendimento foi descontraído e prestável (o facto do restaurante estar vazio também ajudou) e a comida não desiludiu.

Pérola da Mourisca
Setúbal, Portugal
Pérola da Mourisca Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 18 de Março 2018

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Casa do Polvo (Santa Luzia)

Bem perto de Tavira, uma das minhas cidades de eleição no país, fica a Capital do Polvo, Santa Luzia. Aquele tipo de freguesia que é conhecida por uma especialidade e, como tal, quase todos os seus restaurantes apregoam ter o melhor polvo das redondezas, adaptado em 30 mil receitas portuguesas e não só!
Não sei efectivamente qual será o melhor, são demasiados para experimentar, mas já há muito que ouvia falar da Casa do Polvo e foi a minha primeira opção para um almoço tardio. Casa ainda cheia perto das 14h de um domingo, com uma ementa virada para o nosso octópode favorito (como é óbvio) e o serviço a cumprir os mínimos olímpicos, sem grande simpatia, como quem quer terminar o serviço de almoço o mais rápido possível.
Começámos pelos Panadinhos de Polvo, pedaços de tentáculos de polvo irregularmente panados, sem uma camada uniforme de pão ralado sobre os mesmos, e com um défice de sal enorme. Felizmente a falta de sal conseguiu ser ligeiramente mitigada com o limão, a maionese de alho e o molho picante que acompanhavam os panadinhos, mas deveriam ser capazes de brilhar mesmo sem os complementos.



Algo melhor o Polvo de Fricassé com um molho cremoso que envolvia tudo, mas sem aquelas críticas notas cítricas do limão tradicionais. O limão vinha no prato, para colocarmos a nosso gosto, mas isto acaba por fugir à ideia que temos do fricassé. Isso e o uso de pimentos, mas até gostei do toque que dava ao prato.



E o momento estranho da refeição foi quando uma Feijoada de Polvo com Malagueta e Coentros chegou à mesa e sabia... a nada! Há muito tempo que não provava um prato tão insípido, principalmente quando toda a sua premissa invoca sabor. Feijão, polvo, malagueta, coentros e até bacon se encontrava no prato, mas sabor nem vê-lo. Tal como o picante expectável da malagueta... Nem com a adição de picante o prato melhorou por aí além. Nem acho que tenha sido um erro de casting, porque a ideia por trás do prato é simples e tem tudo para correr bem. Faltou só mão na cozinha.



Decidimos terminar com algo doce mas regional e a escolha recaiu sobre a Tarte de Alfarroba com Frutos Silvestres. Excelente sabor, boa combinação com os frutos silvestres, mas a tarte a apresentar-se um pouco mais densa do que é desejável.



Abandonamos o restaurante a pensar que podia (e devia) ter sido muito melhor. Não só pelo preço mas porque temos clara noção que faltava apenas amor e carinho para os pratos terem resultado na perfeição. E não há cozinha decente sem algum amor e carinho...

Casa do Polvo
Tavira, Portugal
Preço Médio: < 30 €
Data da Visita: 18 de Março 2018